{"id":21080,"date":"2023-07-19T09:53:57","date_gmt":"2023-07-19T12:53:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf-wp2027\/?p=21080"},"modified":"2023-07-19T09:53:58","modified_gmt":"2023-07-19T12:53:58","slug":"desigualdades-no-financiamento-de-pesquisas-em-fisica-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/desigualdades-no-financiamento-de-pesquisas-em-fisica-no-brasil\/","title":{"rendered":"Desigualdades no financiamento de pesquisas em F\u00edsica no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>O Brasil investe pouco mais de 1% de seu produto interno bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento. De acordo com um relat\u00f3rio do Minist\u00e9rio de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o (MCTI), em 2019 o pa\u00eds investiu cerca de R$ 89,5 bilh\u00f5es nesse setor, o que corresponde a somente 1,21% do PIB. No entanto, de 2019 a 2020, constatou-se que houve uma redu\u00e7\u00e3o de 8,2% nos valores totais investidos em pesquisa e desenvolvimento, que passaram a representar 1,14% do PIB. Enquanto o disp\u00eandio p\u00fablico aumentou nesse per\u00edodo de 0,58% para 0,62%, o investimento empresarial caiu de 0,63% para 0,53%. E as perdas devidas a cortes or\u00e7ament\u00e1rios entre 2014 e 2021 totalizaram R$ 83 bilh\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2022, segundo o presidente do Sindicato Nacional dos Gestores P\u00fablicos em Ci\u00eancia e Tecnologia, o or\u00e7amento para esse setor foi o menor dos \u00faltimos dez anos. O or\u00e7amento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (FNDCT), uma das principais fontes de financiamento \u00e0 pesquisa no Brasil, ficou 44,76% abaixo do valor no ano anterior. Entre 2014 e 2021, os valores dos or\u00e7amentos dos dois principais \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos de fomento \u00e0 pesquisa, a Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnol\u00f3gico (CNPq), tiveram quedas respectivas de 42,6% e 49,7%.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso torna escassos e muito disputados os recursos dispon\u00edveis para os pesquisadores em atua\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, que se concentram nas universidades p\u00fablicas. Nessa disputa, aqueles que trabalham nos grandes centros socioecon\u00f4micos, sobretudo na regi\u00e3o Sudeste, encontram-se em situa\u00e7\u00e3o vantajosa. Em S\u00e3o Paulo especificamente, os pesquisadores contam com as diversas modalidades de aux\u00edlio da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp), a FAP que investe mais recursos no desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico no pa\u00eds. Em 2021, a Fapesp desembolsou R$ 1.013.319.058 no fomento a 19.692 projetos de pesquisa vigentes no per\u00edodo. Desse total, 34,1% foram destinados \u00e0s Ci\u00eancias Exatas e da Terra e Engenharias (um total de R$ 345.541.798,78), que incluem a F\u00edsica. Nos outros estados, a capacidade de investimento das FAPs \u00e9 menor. Seus or\u00e7amentos s\u00e3o definidos pelas Constitui\u00e7\u00f5es dos estados, mas nem sempre s\u00e3o integralmente repassados, o que dificulta o atendimento das necessidades regionais de investimento em pesquisa e desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio, as \u00e1reas que potencialmente rendem mais aplica\u00e7\u00f5es, possibilidade de desenvolvimento tecnol\u00f3gico, inova\u00e7\u00e3o e patentes tendem a ser priorizadas em detrimento da ci\u00eancia b\u00e1sica e do ensino. E grandes projetos tem\u00e1ticos, nos quais s\u00e3o investidas somas vultosas, t\u00eam recebido \u00eanfase, favorecendo um n\u00famero reduzido de grupos de pesquisa. Um&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/rk\/a\/5yrNfL58wF36k33TRwvtfkN\/\">estudo sobre a distribui\u00e7\u00e3o de recursos entre as diversas \u00e1reas do conhecimento<\/a>&nbsp;analisou 130 editais formulados pelo CNPq entre 2011 e 2014 e constatou que a palavra mais frequente neles era tecnologia(s).<\/p>\n\n\n\n<p>Outra medida da desigualdade no financiamento pode ser constatada por meio dos recursos disponibilizados pelo Edital Universal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq) 01\/2000, um montante de R$ 15 milh\u00f5es, dos quais 63% foram destinados a pesquisadores da regi\u00e3o Sudeste. O Rio de Janeiro obteve 34,5% do total, enquanto 16 estados das demais regi\u00f5es obtiveram 37%. Um dado mais recente que atesta essa desigualdade vem das 1910 bolsas concedidas pela Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior (Capes) para o campo de Astronomia e F\u00edsica em 2023: 1025 foram destinadas \u00e0 regi\u00e3o Sudeste, 400 \u00e0 regi\u00e3o Nordeste, 306 \u00e0 regi\u00e3o Sul, 101 ao Centro-Oeste e apenas 78 \u00e0 regi\u00e3o Norte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisadora Rogelma Maria da Silva Ferreira, professora do Centro de Ci\u00eancias Exatas e Tecnol\u00f3gicas (Cetec) da Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo da Bahia (UFRB), trabalha na \u00e1rea de F\u00edsica Estat\u00edstica com \u00eanfase em din\u00e2mica molecular. Ela realiza simula\u00e7\u00f5es para o estudo da dessaliniza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, dado que a escassez de \u00e1gua pot\u00e1vel \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o mundial. \u201cProcuro entender o comportamento da \u00e1gua interagindo especialmente com o nitreto de boro\u201d, conta Ferreira. Os custos de suas pesquisas s\u00e3o altos, porque elas dependem do uso de um conjunto (<em>cluster<\/em>) de computadores para a obten\u00e7\u00e3o dos c\u00e1lculos referentes \u00e0 din\u00e2mica molecular. E tem sido dif\u00edcil obter financiamento. \u201cA maioria dos editais das ag\u00eancias de fomento faz algumas exig\u00eancias que est\u00e3o fora do contexto de pesquisadores que est\u00e3o atuando em universidades relativamente novas, tais como a quantidade de artigos publicados em peri\u00f3dicos e o percentual do n\u00famero de pesquisadores exigidos da mesma universidade do proponente\u201d, relata Ferreira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria das institui\u00e7\u00f5es de ensino criadas mais recentemente no pa\u00eds fica em regi\u00f5es afastadas dos grandes centros, onde se localiza a maior parte das universidades tradicionais brasileiras, nas quais existem grupos de pesquisa e se concentram os pesquisadores com maior n\u00edvel de produtividade. No edital do CNPq usado como exemplo anteriormente, 75% dos projetos da faixa A, contemplados com recursos que v\u00e3o de R$ 50 mil a R$ 100 mil, ficaram com pesquisadores do n\u00edvel 1 de produtividade, que atuam principalmente em universidades do Sudeste.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Ferreira, que participa da Comiss\u00e3o de Justi\u00e7a, Equidade, Diversidade e Inclus\u00e3o (JEDI) da Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF), nas universidades mais novas ainda n\u00e3o existem grupos de pesquisa, e sim profissionais que realizam suas pesquisas de maneira isolada. Isso ocorre porque elas, em geral, ainda n\u00e3o possuem programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o os principais produtores de pesquisa cient\u00edfica nas universidades. Com isso, essas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o contam com um ambiente acad\u00eamico que favore\u00e7a a pesquisa. \u201cNa UFRB, onde estou, por exemplo, o curso de bacharelado em F\u00edsica, foi criado em 2017 e, assim, ainda temos poucos alunos. Dessa maneira, consigo hoje fazer pesquisa gra\u00e7as \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o que eu tenho com o grupo de pesquisa de uma pesquisadora que atua em um grande centro\u201d, conta Ferreira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Fernanda Selingardi Matias, do Instituto de F\u00edsica da Universidade Federal de Alagoas, em Macei\u00f3, realiza pesquisas nas \u00e1reas de f\u00edsica de sistemas complexos, din\u00e2mica cerebral, neuroci\u00eancia computacional e an\u00e1lise de dados eletrofisiol\u00f3gicos. Ela acredita que um dos maiores problemas decorrentes da desigualdade no financiamento \u00e9 a dificuldade que os estudantes enfrentam para participar de eventos realizados na regi\u00e3o Sudeste. \u201cAcaba sendo mais dif\u00edcil o interc\u00e2mbio entre grupos de pesquisas e visitas cient\u00edficas devido \u00e0 dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica e aos pre\u00e7os das passagens. Essa situa\u00e7\u00e3o deve ser parecida para o pessoal de todo o Nordeste e do Norte tamb\u00e9m\u201d, afirma Matias.&nbsp;Al\u00e9m disso, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 melhor para aqueles que atuam nas capitais dos estados do que para quem trabalha no interior.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, a pesquisadora Bianca Martins, docente de F\u00edsica Geral da Universidade Federal do Acre (UFAC), atua na \u00e1rea de Ensino de F\u00edsica e Forma\u00e7\u00e3o Inicial e Continuada de Professores. Nessa \u00e1rea, s\u00e3o escassos os recursos para a pesquisa com equipamentos de laborat\u00f3rios did\u00e1ticos, que acabam sendo realizados com materiais de baixo custo. Martins atua na UFAC desde 2016 e at\u00e9 agora s\u00f3 obteve recursos para sua pesquisa uma vez, por meio de um edital interno, fomentado pela pr\u00f3pria universidade: pouco mais de R$ 4 mil para comprar equipamento de laborat\u00f3rio para o ensino de f\u00edsica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cExistem dificuldades nos laborat\u00f3rios de ensino para atender minimamente \u00e0s disciplinas experimentais de F\u00edsica para os cursos de gradua\u00e7\u00e3o da UFAC. Ficamos mais de um ano sem funcion\u00e1rio (t\u00e9cnico de laborat\u00f3rio) para os laborat\u00f3rios das disciplinas de experimenta\u00e7\u00e3o, bem como pilha e mult\u00edmetro, entre outros. Atualmente, temos apenas um funcion\u00e1rio t\u00e9cnico de laborat\u00f3rio\u201d, conta a pesquisadora. Al\u00e9m disso, h\u00e1 diversos professores de F\u00edsica na UFAC que n\u00e3o t\u00eam sala fixa para trabalhar e outros dividem sala com outros tr\u00eas professores.&nbsp; \u201cEstamos tentando ocupar um pr\u00e9dio que n\u00e3o serviu para o fim para o qual foi constru\u00eddo e ficou parado ao relento. Queremos colocar uma estrutura minimamente adequada nele para que possamos ocup\u00e1-lo, conforme foi prometido pela reitora da universidade\u201d, conta Martins. Essa situa\u00e7\u00e3o se reflete na pesquisa em ensino de F\u00edsica por meio do Mestrado Profissional em Ensino de F\u00edsica e do Mestrado Profissional em Ensino de Ci\u00eancias e Matem\u00e1tica da UFAC, pois se torna dif\u00edcil viabiliz\u00e1-la. A pesquisadora acredita que enfrentaria menos dificuldades para obter financiamento se atuasse em grandes centros, onde as universidades podem contar com recursos espec\u00edficos para essa \u00e1rea.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para combater a desigualdade entre as regi\u00f5es no financiamento das pesquisas em F\u00edsica, Ferreira acredita que os editais de pesquisa devem levar em considera\u00e7\u00e3o que \u00e9 injusta a concorr\u00eancia entre os pesquisadores de grandes centros, nos quais j\u00e1 se consolidaram grupos de pesquisa de excel\u00eancia que contam com alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o contribuindo para a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, e os pequenos centros, onde os pesquisadores trabalham sozinhos e, consequentemente, publicam uma quantidade menor de artigos por ano. No caso de Martins, os editais locais visam muito \u00e0s \u00e1reas ambientais por quest\u00f5es regionais. Na opini\u00e3o dela, deveria haver mais editais voltados \u00e0 pesquisa na \u00e1rea de ensino, tanto locais quanto nacionais. A JEDI tem buscado debater esse assunto e encontrar formas de enfrent\u00e1-lo. \u201cEstamos come\u00e7ando a pensar sobre esse problema agora e a articular ideias para enfrentar essas dificuldades\u201d, afirma a pesquisadora Monyke Hellen dos Santos Fonseca, doutoranda da \u00e1rea de Astrof\u00edsica e membro do JEDI. Segundo outro membro da JEDI, a professora Rogelma Ferreira, a comiss\u00e3o est\u00e1 buscando maneiras de abordar esse tema, come\u00e7ando pela apresenta\u00e7\u00e3o desse problema dentro da pr\u00f3pria SBF.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil investe pouco mais de 1% de seu produto interno bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento. 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