{"id":20608,"date":"2023-04-05T09:43:00","date_gmt":"2023-04-05T12:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf-wp2027\/?p=20608"},"modified":"2023-04-17T09:44:40","modified_gmt":"2023-04-17T12:44:40","slug":"mulheres-na-ciencia-mundos-a-serem-entendidos-por-julia-parreira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/mulheres-na-ciencia-mundos-a-serem-entendidos-por-julia-parreira\/","title":{"rendered":"Mulheres na Ci\u00eancia \u2013 Mundos a serem entendidos por J\u00falia Parreira"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>por Mariana Hafiz<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De uma vontade de entender o mundo veio a escolha de J\u00falia Parreira por cursar F\u00edsica na faculdade. Hoje professora da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Minas Gerais (PUC-MG), a sua curiosidade por entender por que as coisas s\u00e3o dessa maneira a fez prestar o vestibular para F\u00edsica, Biologia e Ci\u00eancias Sociais ao mesmo tempo. No momento de fazer a escolha, encontrou na primeira op\u00e7\u00e3o um caminho para obter algumas das respostas que procurava, mas n\u00e3o todas: ela se recorda de, mesmo cursando F\u00edsica, n\u00e3o conseguir compreender exatamente por que o universo \u00e9 do jeito que \u00e9. Mesmo assim, encontrou beleza em algumas das explica\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esses sentimentos se mantiveram conforme J\u00falia persistiu durante os seis anos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o: foram mais dois anos de mestrado e quatro de doutorado em F\u00edsica at\u00e9 entender que talvez o caminho, para ela, fosse outro. \u201cEu achava F\u00edsica muito bonita e via o trabalho de cientista como um caminho interessante para continuar entendendo as coisas, mas no fim do doutorado eu ainda n\u00e3o estava segura do trabalho de pesquisadora. Quando eu vi que fiquei aliviada por n\u00e3o conseguir a bolsa de p\u00f3s-doutorado, decidi n\u00e3o gastar mais tempo com isso\u201d, afirma J\u00falia. Vale ressaltar que no ensino m\u00e9dio sabe-se pouco sobre o que consiste na carreira de pesquisadora \u2013 tamb\u00e9m conhecida como carreira acad\u00eamica \u2013 que, por vezes, se confunde com a carreira docente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse momento de indecis\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 carreira cient\u00edfica, J\u00falia j\u00e1 era professora e encontrou na sala de aula n\u00e3o s\u00f3 uma profiss\u00e3o mais condizente com seus interesses, mas um novo objeto de pesquisa tamb\u00e9m. Com outras professoras de v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es de ensino do pa\u00eds, ela participa de um grupo de pesquisa sobre metodologias de ensino ativo, para aprimorar as t\u00e9cnicas de ensino de ci\u00eancias dentro da sala de aula.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela enxerga que o trabalho do grupo complementa as suas atividades enquanto professora de F\u00edsica para as gradua\u00e7\u00f5es de Engenharia, Licenciatura de F\u00edsica e Licenciatura em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas na PUC-MG. \u201cOs problemas da minha pesquisa surgem em sala de aula e ali mesmo j\u00e1 vou investigando. Tem uma alimenta\u00e7\u00e3o muito legal da doc\u00eancia atrav\u00e9s da pesquisa\u201d, afirma ela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das grandes contribui\u00e7\u00f5es do grupo \u00e9 o desenvolvimento de t\u00e9cnicas que buscam trazer novas formas de ensinar ci\u00eancia para al\u00e9m do formato tradicional de aula expositiva \u2013 isto \u00e9, em que um professor, \u00e0 frente da sala, passa conte\u00fado em uma lousa de forma verbal. Nesta concep\u00e7\u00e3o, cabe aos alunos o papel de copiar o conte\u00fado no caderno e estudar para provas. Os modelos que J\u00falia e colegas do grupo desenvolvem envolvem experimentos, conversas e debates conjuntos dentro da sala de aula, na inten\u00e7\u00e3o de que, desta forma, os alunos se apropriem do conhecimento ativamente e desenvolvam pensamento cr\u00edtico, ao inv\u00e9s de s\u00f3 absorverem o conte\u00fado. A inten\u00e7\u00e3o do grupo \u00e9 compreender o que funciona melhor ou pior dentro da sala de aula tanto no aprendizado quanto no bem-estar dos estudantes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/secao-137-20230405-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20725 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Legenda: Hoje em dia, J\u00falia Parreira prioriza experimentos pr\u00e1ticos para engajar os alunos com a mat\u00e9ria da aula, ao inv\u00e9s da aula tradicional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo passando pela pandemia de Covid-19, os resultados parecem promissores. \u201cHoje eu n\u00e3o leciono mais no modelo tradicional e os estudantes interagem muito. Durante a pandemia, o desafio foi saber como faz\u00ea-los interagir, realizar experimentos e conversar entre si no ensino remoto. Eu e mais tr\u00eas professoras conseguimos inventar formas de fazer isso e o resultado foi muito positivo. Os alunos se sentiram acolhidos, mais integrados que conseguiam acompanhar as aulas\u201d, detalha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>G\u00eanero e sala de aula<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A grande maioria dos membros deste grupo de pesquisa s\u00e3o mulheres \u2013 somente um dos professores \u00e9 homem. Apesar de n\u00e3o ser intencional, a composi\u00e7\u00e3o \u00e9 vista por J\u00falia como algo natural, e faz dele algo a mais do que um espa\u00e7o acad\u00eamico \u2013 ele passa a funcionar tamb\u00e9m como um grupo de apoio no qual as professoras encontraram acolhimento e seguran\u00e7a durante a pandemia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A import\u00e2ncia de ter um espa\u00e7o para representatividade feminina no universo acad\u00eamica \u00e9 particularmente forte em outro projeto do qual J\u00falia faz parte, o ComCi\u00eancias das Minas, em que por um semestre, antes da pandemia, ela e colegas professoras trabalharam com alunas do oitavo e nono ano de uma escola municipal de Belo Horizonte em experimentos de f\u00edsica. A cada duas semanas as pesquisadoras iam at\u00e9 a escola e passavam a tarde com as estudantes, que, ao final do semestre, podiam replicar o que aprenderam ensinando aos colegas das suas turmas. \u201cA ideia era a gente estar ali com essas meninas mostrando para elas que n\u00f3s somos mulheres cientistas e que n\u00e3o \u00e9 por ser mulher que elas n\u00e3o podem ser pesquisadoras ou qualquer outra coisa que elas queiram\u201d, explica a professora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/secao-137-20230405-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20726 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Legenda: J\u00falia Parreira e alunas do projeto ComCi\u00eancias das Minas, em Belo Horizonte<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de n\u00e3o ter reparado individualmente nessas quest\u00f5es durante a sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica, mesmo porque a sua fam\u00edlia sempre apoiou suas escolhas neste sentido, J\u00falia reconhece que, hoje, h\u00e1 mais espa\u00e7o para discutir essas quest\u00f5es do que na \u00e9poca em que ela estava se formando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela se lembra de duas situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas em que a discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero ficou clara em suas aulas: em uma delas, a sala foi instru\u00edda a formar grupos para trabalhar e um deles foi composto inteiramente de mulheres. Em resposta, um aluno da turma comentou \u201cnesse grupo n\u00e3o vai ter f\u00edsica n\u00e3o, s\u00f3 vai ter fofoca\u201d. Em outra ocasi\u00e3o, um grupo de alunas dava aula como parte de uma atividade final do curso de Licenciatura em F\u00edsica. Nesta sala, um aluno ficou com d\u00favida e, ao pedir ajuda para uma das professoras, ouviu de outro colega \u201c\u00e9 s\u00e9rio que vai ter que vir uma mulher para te ajudar com f\u00edsica?\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00falia conta que o que tem feito nessas situa\u00e7\u00f5es \u00e9 abrir o espa\u00e7o para debate. \u201cEu parei as aulas e disse que n\u00e3o \u00edamos mais falar sobre f\u00edsica, \u00edamos conversar sobre outras coisas. Falei dos meus projetos e expliquei por que esses coment\u00e1rios eram problem\u00e1ticos e por que n\u00e3o eram piadas. \u00c9 uma boa abordagem porque depois vem muitas meninas conversar comigo. Em uma dessas ocasi\u00f5es, ficamos 50 minutos da aula falando sobre o assunto com a sala inteira e houve cinco mulheres que choraram durante os 50 minutos\u201d, recorda a pesquisadora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das principais diferen\u00e7as que ela enxerga \u00e9 que, dez anos atr\u00e1s, talvez esse debate teria passado despercebido \u2013 o que tamb\u00e9m poderia acontecer se ela n\u00e3o fosse mulher ou n\u00e3o atuasse com o tema. Para ela, \u00e9 importante criar essas formas de empoderamento porque uma das grandes dificuldades das mulheres nas ci\u00eancias \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a somada \u00e0s complica\u00e7\u00f5es das disciplinas em si.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, seu conselho para as pr\u00f3ximas mulheres f\u00edsicas \u00e9 que elas saibam que \u201cvale a pena seguir na carreira, mas \u00e9 um caminho de muita dedica\u00e7\u00e3o e empecilhos e que n\u00e3o \u00e9 por ser mulher que a gente deve deixar isso nos frear. \u00c9 importante encontrar outras pessoas iguais \u00e0 gente para nos fortalecermos, para descobrir as dificuldades de ser mulher nas ci\u00eancias e encar\u00e1-las\u201d, aconselha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Mariana Hafiz De uma vontade de entender o mundo veio a escolha de J\u00falia Parreira por cursar F\u00edsica na faculdade. Hoje professora da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Minas Gerais (PUC-MG), a sua curiosidade por entender por que as coisas s\u00e3o dessa maneira a fez prestar o vestibular para F\u00edsica, Biologia e Ci\u00eancias Sociais ao [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":20318,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[250],"tags":[],"class_list":["post-20608","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-secao-137"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20608","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20608"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20608\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20609,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20608\/revisions\/20609"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20318"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20608"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20608"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20608"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}