{"id":20485,"date":"2023-03-06T15:15:52","date_gmt":"2023-03-06T18:15:52","guid":{"rendered":"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=20485"},"modified":"2023-03-06T15:19:15","modified_gmt":"2023-03-06T18:19:15","slug":"uma-antropologa-na-pesquisa-do-ensino-de-fisica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/uma-antropologa-na-pesquisa-do-ensino-de-fisica\/","title":{"rendered":"Uma antrop\u00f3loga na pesquisa do ensino de F\u00edsica"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por Fl\u00e1via Nat\u00e9rcia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Camila Manni Dias do Amaral, 32 anos, estuda as redes sociais de mulheres e pessoas LGBTQIA+ que fizeram doutorado em F\u00edsica e trabalham na \u00e1rea acad\u00eamica, na ind\u00fastria ou no setor governamental nos Estados Unidos. Conforme ela explica, a \u201can\u00e1lise de redes sociais\u201d (em ingl\u00eas, <em>social network analysis<\/em>) \u00e9 um conceito da Sociologia que, no departamento onde trabalha, est\u00e1 sendo aplicado ao Ensino de F\u00edsica. \u201cNossa pesquisa tem como objetivo entender o que faz com que pessoas dos grupos mencionados continuem engajadas em suas \u00e1reas. Analisamos como essas pessoas se relacionam, quais os momentos fundamentais em suas carreiras e trajet\u00f3rias pessoais e como institui\u00e7\u00f5es podem contribuir para que essas pessoas tenham experi\u00eancias que contribuam para sua perman\u00eancia no campo da F\u00edsica\u201d, conta Camila.<\/p>\n\n\n\n<p>Camila se define como uma pessoa curiosa que tem pouco apre\u00e7o por \u201ccaixinhas\u201d. Essa defini\u00e7\u00e3o se reflete em sua trajet\u00f3ria: ela \u00e9 antrop\u00f3loga e fez mestrado em Ci\u00eancias Sociais com \u00eanfase na antropologia das emo\u00e7\u00f5es e da sa\u00fade, mas depois mudou de \u00e1rea, licenciando-se em F\u00edsica. Em seguida, ela fez doutorado em Ensino e Hist\u00f3ria da Matem\u00e1tica e da F\u00edsica. Orientada pela professora Marta Feij\u00f3 Barroso, ela defendeu a tese intitulada \u201c\u2018Eles acham que eu estou preparada para ensinar coisas que eu n\u00e3o estou\u2019: percep\u00e7\u00e3o de professores sobre ensinar ci\u00eancias no contexto de uma reforma curricular no ensino fundamental\u201d. \u201cAtualmente, lidero uma pesquisa em que trabalho como antrop\u00f3loga e como f\u00edsica, ent\u00e3o acho que depois da bifurca\u00e7\u00e3o no caminho, ambas as \u00e1reas se reencontraram e andam juntas\u201d, conta Camila.<\/p>\n\n\n\n<p>Camila gosta de todo tipo de m\u00fasica, mas suas bandas favoritas s\u00e3o Pink Floyd e Maneskin. Al\u00e9m de fazer pesquisa, ela gosta de cantar em karaok\u00eas e de passar o tempo com seu marido, sua fam\u00edlia e seus amigos, tomando cerveja gelada. Seu passatempo favorito consiste em entrar em conversas que desafiam o que ela sabe ou acha que sabe ou acredita antes de come\u00e7\u00e1-las. Ela se exercita regularmente, fazendo muscula\u00e7\u00e3o e escalada. E atualmente est\u00e1 treinando para correr uma meia maratona e acaba de esquiar pela primeira vez em Salt Lake City, onde est\u00e1 morando para fazer seu p\u00f3s-doutorado no Departamento de F\u00edsica e Astronomia da Universidade de Utah. \u201cSou p\u00e9ssima esquiadora, mas n\u00e3o quebrei nenhum osso at\u00e9 agora e isso \u00e9 definitivamente uma vit\u00f3ria!\u201d, comemora Camila. Fora de sua \u00e1rea, ela l\u00ea pouco. \u201cA faculdade, o mestrado, o doutorado e agora o p\u00f3s-doutorado mataram a minha vontade de ler. Eu tenho que ler tanto, porque meu trabalho me demanda isso, que no final do dia n\u00e3o quero ler mais, prefiro sair para correr, assistir a alguma coisa no Netflix ou jogar <em>Backgammon<\/em>\u201d, conta a pesquisadora. E \u00e9 nas mulheres de sua fam\u00edlia que Camila encontra inspira\u00e7\u00e3o para o trabalho e a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela decidiu que queria seguir uma carreira na \u00e1rea de F\u00edsica quando ela tinha seis anos, em uma exposi\u00e7\u00e3o da UFRJ na Casa da Ci\u00eancia. \u201cEu n\u00e3o tinha a menor ideia do que era F\u00edsica, mas sabia que eu queria fazer\u201d, conta a pesquisadora. No entanto, eventos traum\u00e1ticos que ela prefere n\u00e3o compartilhar a levaram a seguir outro caminho. Por isso, ela fez Ci\u00eancias Sociais antes de fazer a Licenciatura em F\u00edsica pelo Centro de Educa\u00e7\u00e3o Superior a Dist\u00e2ncia do Rio de Janeiro (Cederj). Nesse percurso, ela acredita que algumas oportunidades de criar conex\u00f5es e fazer inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica foram atrasadas ou perdidas, porque o curso era semipresencial e porque \u00e0quela altura ela j\u00e1 tinha feito gradua\u00e7\u00e3o e mestrado em Ci\u00eancias Sociais e trabalhava muito. \u201cPara n\u00e3o dizer que n\u00e3o fiz nada, fiz inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica por um ano no final do curso, no Laborat\u00f3rio Did\u00e1tico do Instituto de F\u00edsica (LADIF)\/UFRJ, onde me diverti bastante e tive a oportunidade de participar de atividades que foram bastante construtivas para uma licenciada\u201d, relata Camila.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de sua trajet\u00f3ria, um dos principais est\u00edmulos que recebeu foi a possibilidade de estudar sem ter de se preocupar com a subsist\u00eancia. \u201cTer onde morar e o que comer foi um excelente est\u00edmulo para poder me dedicar \u00e0 vida acad\u00eamica, assim como as bolsas de estudo que recebi durante toda a minha vida escolar\u201d, afirma Camila. \u201cA F\u00edsica \u00e9 uma \u00e1rea em que a maioria das pessoas que eu conhe\u00e7o nasceu com uma certa estabilidade financeira, ent\u00e3o essas coisas parecem garantidas e dinheiro parece um detalhe, mas, para quem nasceu pobre que nem eu, essas coisas importam bastante\u201d, completa Camila. Seus pais s\u00e3o professores da rede p\u00fablica e tiveram de batalhar muito para que ela e sua irm\u00e3 pudessem estudar em uma universidade p\u00fablica com toda a dedica\u00e7\u00e3o que isso requer. Por outro lado, o fato de ser mulher interferiu no seu percurso: ela passou em momentos diferentes por diversas situa\u00e7\u00f5es que v\u00e3o desde a exclus\u00e3o deliberada at\u00e9 o ass\u00e9dio, as quais atrasaram seu ingresso na F\u00edsica e lhe fizeram reconsiderar se desejava permanecer nessa carreira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Camila v\u00ea a participa\u00e7\u00e3o das mulheres nos campos de Ci\u00eancia, Tecnologia, Engenharia e Matem\u00e1tica (STEM, acr\u00f4nimo em ingl\u00eas) como algo que tem se expandido, em parte devido a iniciativas criadas com esse objetivo. No entanto, ela questiona: ser\u00e1 que essa expans\u00e3o, que significa um aumento da inclus\u00e3o, pode ser considerada uma inclus\u00e3o igualit\u00e1ria? \u201cExiste uma diferen\u00e7a entre dizer \u2018mulheres, venham para a f\u00edsica\u2019 e criar um ambiente que, de fato, seja inclusivo ap\u00f3s a entrada dessas mulheres, e esse ambiente inclusivo que contribui para essa perman\u00eancia \u00e9 algo que eu n\u00e3o vejo. Pol\u00edticas inclusivas s\u00e3o importantes, mas em ambientes excludentes elas dificilmente florescem\u201d, pondera a pesquisadora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Camila, h\u00e1 pesquisas e levantamentos demogr\u00e1ficos no Brasil que mostram a predomin\u00e2ncia de homens brancos cisg\u00eaneros na F\u00edsica. Dentre eles, ela destaca o trabalho de Betina Stefanello Lima, analista em Ci\u00eancia e Tecnologia do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq), sobre o \u201c<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/ref\/a\/v7m9qdqJPRMhSmyhny7kQgq\/?format=pdf&amp;lang=pt\">labirinto de cristal<\/a>\u201d e o <a href=\"https:\/\/arxiv.org\/abs\/1912.08082\">estudo de C\u00e9lia Anteneodo<\/a>, professora do Departamento de F\u00edsica da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC) do Rio de Janeiro, em que ela e seus colaboradores apresentam dados interessantes sobre a comunidade da F\u00edsica no pa\u00eds. Camila tamb\u00e9m destaca discuss\u00f5es, como a realizada no trabalho de Betina, sobre os fatores que prejudicam as experi\u00eancias das mulheres na F\u00edsica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cExistem numerosos trabalhos tamb\u00e9m falando sobre microagress\u00f5es sofridas por mulheres na F\u00edsica\u201d, relata Camila, cujo grupo em que trabalha conduz nessa \u00e1rea uma pesquisa na qual mulheres foram entrevistadas h\u00e1 11 anos e entrevistadas novamente em 2022 abordando suas experi\u00eancias nesse meio tempo. \u201cEstamos trabalhando em uma publica\u00e7\u00e3o sobre esse tema e eu posso adiantar que os dados n\u00e3o s\u00e3o para deixar ningu\u00e9m muito feliz\u201d, conta Camila. Assim, ela considera que o panorama ainda tem de melhorar muito, apesar de ter havido um aumento no n\u00famero de mulheres no campo da F\u00edsica. \u201cPenso que \u00e9 importante pensar em como queremos que essa inclus\u00e3o aconte\u00e7a e em formas de promover uma inclus\u00e3o a partir de iniciativas que n\u00e3o sejam transit\u00f3rias ou, como se diz, \u2018para ingl\u00eas ver\u2019\u201d, completa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, ela diria a uma jovem que est\u00e1 ingressando nesse campo: \u201cVai com tudo, guria!\u201d. Isso porque o investimento no recrutamento de mulheres para a F\u00edsica aumenta a diversidade, o que enriquece os grupos de pesquisa, e porque faltam pessoas nos campos de STEM, o que pode ser um problema s\u00e9rio. No entanto, apesar de a diversidade beneficiar as institui\u00e7\u00f5es, as empresas e as ci\u00eancias como um todo, as pessoas de grupos minorit\u00e1rios recebem menos reconhecimento por seus trabalhos e sal\u00e1rios inferiores. \u201cEnt\u00e3o, na minha opini\u00e3o, a import\u00e2ncia de incentivar meninas e mulheres na ci\u00eancia \u00e9 que, se n\u00f3s queremos ser professoras e pesquisadoras de F\u00edsica, devemos ter o direito assegurado de s\u00ea-lo e um ambiente que nos inclua e tenha pol\u00edticas de incentivo para nossa perman\u00eancia. Eu sou muito feliz com a minha profiss\u00e3o, absolutamente apaixonada pela pesquisa que estou desenvolvendo, e desejo essa mesma satisfa\u00e7\u00e3o profissional a outras meninas e mulheres\u201d, conclui Camila.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1via Nat\u00e9rcia Camila Manni Dias do Amaral, 32 anos, estuda as redes sociais de mulheres e pessoas LGBTQIA+ que fizeram doutorado em F\u00edsica e trabalham na \u00e1rea acad\u00eamica, na ind\u00fastria ou no setor governamental nos Estados Unidos. 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