{"id":20482,"date":"2023-03-06T15:10:33","date_gmt":"2023-03-06T18:10:33","guid":{"rendered":"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=20482"},"modified":"2023-03-06T15:19:51","modified_gmt":"2023-03-06T18:19:51","slug":"uma-pesquisadora-engajada-no-combate-a-discriminacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/uma-pesquisadora-engajada-no-combate-a-discriminacao\/","title":{"rendered":"Uma pesquisadora engajada no combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por Fl\u00e1via Nat\u00e9rcia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Gabriela Barreto Lemos, 40 anos, est\u00e1 prestes a ter seu primeiro filho. Ela \u00e9 professora Adjunta no Instituto de F\u00edsica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IF\/UFRJ) e se define como uma mulher branca e mineira, cujos pais s\u00e3o professores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). \u201cEnt\u00e3o, eu sempre tive muita inser\u00e7\u00e3o na universidade, desde crian\u00e7a. At\u00e9 a creche ficava na UFMG!\u201d, conta Gabriela. Em seu&nbsp; laborat\u00f3rio, ela se dedica a estudar as propriedades qu\u00e2nticas da luz, visando tanto efeitos fundamentais, tentando entender fen\u00f4menos do mundo subat\u00f4mico, quanto a cria\u00e7\u00e3o de ferramentas que podem ajudar a fazer metrologia, tecnologias de sensoriamento, melhores c\u00e2meras, melhores computadores, internet qu\u00e2ntica ou criptografia qu\u00e2ntica. \u00c9 por a\u00ed que, muitas vezes, ela consegue financiamento, mas n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m que pensa muito nas aplica\u00e7\u00f5es, que aparecem quando s\u00e3o necess\u00e1rias. \u201cProcuro pensar nas minhas inquieta\u00e7\u00f5es, que na F\u00edsica se relacionam com o que acontece no mundo subat\u00f4mico e \u00e9 dif\u00edcil entender\u201d, relata Gabriela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da pesquisa, ela gosta muito de lecionar e \u00e9 muito ligada \u00e0s quest\u00f5es do ensino, mas ainda n\u00e3o tem uma disciplina fixa. Gabriela assumiu seu cargo como professora na UFRJ em 2020, em plena pandemia de Covid-19, e desde ent\u00e3o j\u00e1 deu cursos para calouros de F\u00edsica e Engenharia. E, no \u00faltimo ano e meio, deu aulas no curso de Licenciatura em F\u00edsica com grande prazer. \u201cEu fiz com eles oficinas de ensino em que a gente trabalhou com o uso de tecnologias como computadores e celulares no ensino, para que os futuros professores possam explorar as ferramentas que existem\u201d, conta Gabriela. Ela gosta muito tamb\u00e9m de m\u00fasica e de dan\u00e7a, que s\u00e3o seus hobbies.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A professora diz que n\u00e3o \u00e9 claro para ela at\u00e9 hoje por que decidiu seguir uma carreira em F\u00edsica. Seus pais atuam em outros campos do conhecimento, mas s\u00e3o pesquisadores, ent\u00e3o Gabriela sempre soube que queria ser professora universit\u00e1ria. Sua curiosidade sempre foi agu\u00e7ada para quest\u00f5es fundamentais, filos\u00f3ficas, cosmol\u00f3gicas. E ela se sa\u00eda muito bem nas disciplinas de Matem\u00e1tica, F\u00edsica e Qu\u00edmica. Ent\u00e3o chegou a considerar se graduar em Qu\u00edmica. Tamb\u00e9m pensou em fazer Medicina, porque sua m\u00e3e \u00e9 m\u00e9dica. Mas ela detestava Biologia, porque exigia decorar muitas coisas, enquanto na F\u00edsica ela conseguia entender.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, Gabriela teve um bom professor de F\u00edsica no Ensino M\u00e9dio, que fazia experimentos e \u201ccoisas bem legais\u201d. \u201cEscolhi na hora do vestibular mesmo. Eu fiquei entre Psicologia, Medicina, Filosofia, F\u00edsica ou M\u00fasica\u201d, relata a professora. Mas seus pais achavam que a F\u00edsica, dentre todas essas possibilidades, era a que abria mais portas, porque \u00e9 um campo com muitas dire\u00e7\u00f5es que podem ser seguidas. \u201cE acabei me dando bem, gostei\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Gabriela recebeu est\u00edmulo para ingressar e seguir na carreira de seus pais e de sua fam\u00edlia de modo geral, que preza muito o estudo. \u201cMinhas av\u00f3s n\u00e3o estudaram, mas para elas o estudo era a coisa mais importante do mundo, justamente porque as duas queriam ter seguido uma carreira e n\u00e3o puderam. Isso me ajudou muito ao longo da minha carreira, antes e depois de entrar na faculdade\u201d, conta a pesquisadora. Seus pais sempre a apoiaram quando ela decidiu fazer mestrado, doutorado e p\u00f3s-doutorado, sem cobrar que come\u00e7asse a trabalhar no lugar de estudar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, na universidade ela tamb\u00e9m contou com o apoio da professora Maria Carolina Nemes, sua orientadora na inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e no mestrado. \u201cEla me deu chacoalhadas quando foi preciso, tamb\u00e9m me apoiou quando foi preciso, me explicou muito sobre como funciona o mundo da F\u00edsica, tanto por meio de palavras quanto por meio de atitudes, e me colocou em situa\u00e7\u00f5es nas quais eu tive de me virar\u201d, lembra Gabriela. E, por fim, a pesquisadora destaca o apoio de sua amiga Nadja Kolb Bernardes, com quem cursou o Ensino M\u00e9dio, cujo pai \u00e9 f\u00edsico. \u201cN\u00f3s somos amigas e fazemos coisas juntas at\u00e9 hoje. Mesmo agora que vivemos em cidades diferentes continuamos muito pr\u00f3ximas e somos muito honestas uma com a outra, o que me ajuda bastante\u201d, conta Gabriela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisadora conta ainda que demorou a se perceber como uma mulher na F\u00edsica, o que aconteceu somente em 2014, quando foi fazer seu p\u00f3s-doutorado na \u00c1ustria. Ela acredita que isso dificultou a percep\u00e7\u00e3o de diversas situa\u00e7\u00f5es que vivenciou, pois n\u00e3o identificava sua posi\u00e7\u00e3o dentro desse universo, encarando as dificuldades por que passou como quest\u00f5es pessoais, e n\u00e3o sociais ou pol\u00edticas. Quando ela entrou na faculdade, os meninos eram muito machistas, faziam piadinhas mis\u00f3ginas e homof\u00f3bicas. \u201cDiziam que as mulheres na F\u00edsica s\u00e3o todas feias, por exemplo. Isso sempre me incomodou, mas demorei a entender por qu\u00ea\u201d, relata Gabriela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3pria Maria Carolina Nemes tratou desse assunto com Gabriela, mas ela n\u00e3o estava pronta para entender a si mesma e a comunidade de f\u00edsicos dessa forma. Sua orientadora lhe avisou que, quando ela fosse estudar no exterior, isso tudo ficaria muito mais expl\u00edcito, porque no Brasil as viol\u00eancias s\u00e3o veladas, disfar\u00e7adas, mascaradas, e somente h\u00e1 pouco tempo passaram a ser denunciadas. E, de fato, quando Gabriela foi fazer p\u00f3s-doutorado na \u00c1ustria, percebeu que tanto a discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero quanto a racial l\u00e1 eram muito mais escancaradas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela chegou ao laborat\u00f3rio estrangeiro ao mesmo tempo em que um homem branco franc\u00eas e um homem negro estadunidense. Enquanto o franc\u00eas n\u00e3o esbarrou em obst\u00e1culos, o pesquisador negro e ela sentiram na pele a discrimina\u00e7\u00e3o. \u201cEu tive dificuldade para encontrar apartamento e ficava me perguntando o porqu\u00ea at\u00e9 que um homem verbalizou\u201d. Uma mulher brasileira e solteira, mesmo portando uma carta do chefe na universidade, um cidad\u00e3o muito conhecido de uma institui\u00e7\u00e3o muito respeitada, n\u00e3o podia estar l\u00e1 para trabalhar na universidade: ela devia ser uma prostituta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No laborat\u00f3rio na \u00c1ustria, trabalhavam trinta homens e somente tr\u00eas mulheres, que ficavam isoladas, ningu\u00e9m as convidava para as confraterniza\u00e7\u00f5es, nas quais se estabeleciam muitas das colabora\u00e7\u00f5es em pesquisa. E havia as brincadeiras sem gra\u00e7a, os cochichos e as risadas que se faziam quando elas chegavam. \u201cEnt\u00e3o vivi situa\u00e7\u00f5es muito violentas l\u00e1\u201d, conta a pesquisadora. \u201cMas, no Brasil, eu n\u00e3o percebia isso assim claramente, porque aqui ocorre a mesma viol\u00eancia, s\u00f3 que \u00e9 colocada de outro jeito. Somente l\u00e1 eu fui entender o que minha orientadora tinha falado\u201d, completa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de se descobrir como uma mulher na ci\u00eancia, Gabriela tamb\u00e9m passou a se engajar nessa tem\u00e1tica, participando de eventos e criando projetos para lidar com ela. Primeiramente, ela se candidatou, juntamente com a amiga Nadja, a uma vaga no Grupo de Trabalho sobre Quest\u00f5es de G\u00eanero da Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF), criado em 2015 para substituir a Comiss\u00e3o de Rela\u00e7\u00f5es de G\u00eanero. Nessa \u00e9poca, havia tamb\u00e9m um Grupo de Trabalho de Equidade Racial, que n\u00e3o dialogava muito com o grupo de g\u00eanero. Mas o Grupo de Trabalho sobre as Quest\u00f5es de G\u00eanero n\u00e3o via sentido em pensar em g\u00eanero sem pensar em ra\u00e7a, classe e sexualidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEnt\u00e3o n\u00f3s fizemos um grande esfor\u00e7o para juntar nossos esfor\u00e7os\u201d, conta Gabriela. E, pouco tempo depois, a SBF decidiu acabar com os grupos de trabalho. \u201cEnt\u00e3o sentamos juntas e discutimos como poder\u00edamos n\u00e3o virar s\u00f3 uma comiss\u00e3o de g\u00eanero. E foi a\u00ed que a professora Katemari Rosa, da Universidade Federal da Bahia, prop\u00f4s criar uma comiss\u00e3o de justi\u00e7a, equidade, diversidade e inclus\u00e3o e fizemos um estatuto que deixa claro que essas s\u00e3o nossas miss\u00f5es\u201d, conta Gabriela. \u201cNossa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que as quest\u00f5es de ra\u00e7a e classe s\u00e3o mais fortes dentro da F\u00edsica do que a de g\u00eanero\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, foi criada a Comiss\u00e3o de Justi\u00e7a, Equidade, Diversidade e Inclus\u00e3o, o que em si Gabriela considera uma conquista, trazendo essas quest\u00f5es para dentro da SBF. Dentre as iniciativas propostas pela JEDI, est\u00e1 o recadastramento dos s\u00f3cios da institui\u00e7\u00e3o, com a inclus\u00e3o de uma autodeclara\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a, cor, g\u00eanero e orienta\u00e7\u00e3o sexual para que se fa\u00e7a um mapeamento mais claro do panorama atual em termos de representatividade. E o grupo criou um guia para a organiza\u00e7\u00e3o de eventos visando torn\u00e1-los mais diversos e inclusivos, orientando sobre como montar as mesas, selecionar trabalhos e convidados e lidar com as quest\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o e ass\u00e9dio nas confer\u00eancias. \u201cAgora est\u00e1 escrito que na SBF tem que ter x% de pessoas negras como convidadas, x% de mulheres como convidadas, tem que ter uma mesa sobre diversidade. Se essas determina\u00e7\u00f5es s\u00e3o cumpridas \u00e9 outra quest\u00e3o, mas a gente tem um documento aprovado pela diretoria\u201d, conta Gabriela.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra quest\u00e3o abordada pela comiss\u00e3o, em parceria com o grupo <em>Parent in Science<\/em>, consiste na licen\u00e7a-maternidade, que muitas vezes acaba prejudicando a progress\u00e3o na carreira das mulheres. E a comiss\u00e3o est\u00e1 organizando eventos para meninas e mulheres na ci\u00eancia, para que elas possam se conhecer, formar redes e tamb\u00e9m conhecer o trabalho das mulheres cientistas. Por fim, a partir de uma proposta de M\u00e1rcia Barbosa, professora titular do Instituto de F\u00edsica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a JEDI est\u00e1 criando um programa de mentoria a fim de que as estudantes de F\u00edsica sejam preparadas para lidar melhor com os obst\u00e1culos que surgem ao longo de suas trajet\u00f3rias e se sentir mais seguras.<\/p>\n\n\n\n<p>A uma estudante que est\u00e1 ingressando agora na F\u00edsica, Gabriela diria: \u201cV\u00e1 em frente, que atr\u00e1s vem gente!\u201d. Ela aconselha as meninas a se organizar, formando coletivos capazes de fazer com que as quest\u00f5es que as afetam sejam discutidas mais amplamente, envolvendo tamb\u00e9m os estudantes e os professores do g\u00eanero masculino. Uma sugest\u00e3o que ela d\u00e1 \u00e9 que, no in\u00edcio dos cursos, com a participa\u00e7\u00e3o dos docentes, crie-se um c\u00f3digo de conduta para todos, pois \u00e9 preciso ir al\u00e9m da quest\u00e3o da representatividade, que melhora, mas n\u00e3o resolve os problemas que continuam se colocando no caminho das meninas e mulheres que fazem F\u00edsica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1via Nat\u00e9rcia Gabriela Barreto Lemos, 40 anos, est\u00e1 prestes a ter seu primeiro filho. 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