{"id":20478,"date":"2023-03-06T15:06:51","date_gmt":"2023-03-06T18:06:51","guid":{"rendered":"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=20478"},"modified":"2023-03-06T15:06:52","modified_gmt":"2023-03-06T18:06:52","slug":"mulher-cientista-e-mae-na-ciencia-tambem-mulheres-na-ciencia-fernanda-matias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/mulher-cientista-e-mae-na-ciencia-tambem-mulheres-na-ciencia-fernanda-matias\/","title":{"rendered":"\u201cMulher cientista e m\u00e3e na ci\u00eancia tamb\u00e9m\u201d Mulheres na Ci\u00eancia &#8211; Fernanda Matias"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por Mariana Hafiz<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Professora do Instituto de F\u00edsica da Universidade Federal do Alagoas (UFAL), em Macei\u00f3, Fernanda Selingardi Matias percebeu que se interessava por ci\u00eancia no primeiro ano do Ensino M\u00e9dio, quando fazia Olimp\u00edadas de F\u00edsica &#8211; chegando a participar da etapa nacional. Na \u00e9poca moradora de Recife, no estado de Pernambuco (PE), ela se lembra de comparecer a algumas atividades que a Universidade Federal do Pernambuco (UFPE) realizava para os participantes das Olimp\u00edadas e de conhecer o departamento de F\u00edsica da universidade, o que a fez optar e ingressar no curso de Bacharelado em F\u00edsica em 2004.<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia, naquela \u00e9poca, talvez preferisse que ela fizesse alguma Engenharia. \u201cEles pensavam que se eu fizesse F\u00edsica eu ia ser professora e n\u00e3o ganharia t\u00e3o bem, que n\u00e3o era o mercado de trabalho mais tradicional com que a gente est\u00e1 acostumado\u201d, recorda. \u201cAs pessoas conhecem pouco da carreira acad\u00eamica dentro da Universidade e eu tamb\u00e9m n\u00e3o entendia direito o que era ser professor universit\u00e1rio ou fazer pesquisa. Mas aos poucos eles foram entendendo e vendo que t\u00eam muitas oportunidades. Quando comecei a fazer colabora\u00e7\u00e3o com o exterior, por exemplo, e tinha que escrever artigos em ingl\u00eas a\u00ed come\u00e7am a dar uma valorizada, acham que \u00e9 um pouco mais s\u00e9rio (risos)\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A escolha da carreira acad\u00eamica foi ficando mais clara tamb\u00e9m para Fernanda, que, de in\u00edcio, achava que o curso seria semelhante \u00e0 Engenharia. Foi com o passar dos anos que o funcionamento da carreira foi ficando mais claro e come\u00e7ou a fazer sentido, especialmente na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Ela recorda que um dos momentos em que sentiu que queria continuar na \u00e1rea foi a sua defesa da disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, isto \u00e9, um projeto de pesquisa original, que \u00e9 desenvolvido ao longo de dois anos, em m\u00e9dia, e defendido perante uma banca para a obten\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo de Mestre.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele momento ela j\u00e1 havia percebido que tinha adquirido conhecimento suficiente sobre um tema para falar dele e que queria seguir na carreira. A certeza, contudo, veio na pr\u00f3xima etapa. \u201cNo fim do doutorado eu j\u00e1 tinha certeza que ia fazer concurso para universidade e que queria seguir fazendo pesquisa naquele tema. Ainda tinha muita coisa que eu queria entender depois da minha tese\u201d, afirma a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela conta que as mulheres sempre foram minoria nos departamentos e institutos onde foi aluna, mas que, no come\u00e7o dos anos 2000, o debate n\u00e3o era t\u00e3o amplo como hoje em dia. Na verdade, a aus\u00eancia de modelos femininos na ci\u00eancia nesse tempo eram sentidos por ela como algo individual, sem necessariamente ter no\u00e7\u00e3o de que isso envolvia quest\u00f5es coletivas e sociais do ambiente cient\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, na posi\u00e7\u00e3o de professora, ela recebe muitas dessas quest\u00f5es das suas alunas, que a procuram como uma refer\u00eancia, sem necessariamente quererem trabalhar na sua \u00e1rea de pesquisa. \u201cEu comecei a perceber que \u00e9 dif\u00edcil ser mulher cientista no geral, na f\u00edsica talvez um pouco mais porque tem uma quest\u00e3o da representatividade. Realmente somos poucas, 20% no m\u00e1ximo na maioria dos institutos\u201d, afirma a professora. \u201cEu costumo dizer que eu me descobri uma mulher na f\u00edsica s\u00f3 quando virei professora e as estudantes vinham com quest\u00f5es para mim que eu percebia antes, mas pensava que era s\u00f3 comigo\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"750\" height=\"545\" src=\"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/secao137-20230306-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20479\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Legenda: Profa. Fernanda Matias, ao meio, e integrantes do seu grupo de pesquisa comparecendo a Workshop de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em F\u00edsica na Universidade Federal de Alagoas (UFAL)<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Algo que mudou bastante essa percep\u00e7\u00e3o foi quando Fernanda se tornou m\u00e3e, quase dois anos atr\u00e1s. Al\u00e9m da pandemia de Covid-19 que avan\u00e7ava no mundo, come\u00e7avam a aparecer ind\u00edcios de que as din\u00e2micas da carreira se reorganizariam. Parte disso tem a ver com a progress\u00e3o da carreira de docente, ou seja, uma s\u00e9rie de etapas que pessoas concursadas em cargos de professores de ensino superior avan\u00e7am at\u00e9 um certo \u201ctopo\u201d da carreira. Para tentar avan\u00e7ar na progress\u00e3o, h\u00e1 crit\u00e9rios que elencam notas aos professores &#8211; vale lembrar que, no Brasil, professores universit\u00e1rios s\u00e3o os principais respons\u00e1veis por tocar projetos de pesquisa e fazer ci\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cIsso varia de universidade para universidade, mas na progress\u00e3o voc\u00ea tem que dizer o que voc\u00ea fez nos \u00faltimos dois anos em termos de ensino (aulas dadas, essencialmente), produ\u00e7\u00e3o intelectual, extens\u00e3o e gest\u00e3o\u201d, explica Fernanda. \u201cNa de ensino \u00e9 muito claro que voc\u00ea n\u00e3o tinha que cumprir com a carga hor\u00e1ria de aulas do semestre em que voc\u00ea est\u00e1 em licen\u00e7a maternidade, ent\u00e3o voc\u00ea vai ter a pontua\u00e7\u00e3o m\u00e1xima mesmo sem ter dado aula. Dentro desses dois anos, os seis meses que voc\u00ea teve licen\u00e7a n\u00e3o v\u00e3o contar. J\u00e1 para produ\u00e7\u00e3o intelectual, digamos que voc\u00ea tem que ter publicado cinco artigos naqueles dois anos para tirar 10 na sua progress\u00e3o. Nesse caso, se voc\u00ea esteve em licen\u00e7a maternidade, esses cinco teriam que ser renormalizados porque voc\u00ea s\u00f3 estava de fato trabalhando durante um ano e meio daqueles dois que est\u00e3o sendo avaliados. A quest\u00e3o \u00e9 que isso n\u00e3o existe claro em nenhum lugar\u201d, ressalta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Parte do trabalho da Fernanda hoje est\u00e1 junto das demais membras da Comiss\u00e3o de Justi\u00e7a, Equidade, Diversidade e Inclus\u00e3o (JEDI) da Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF)<s>,<\/s> que consiste em levantar dados sobre os processos de progress\u00e3o em diferentes universidades, que insiram nas suas pol\u00edticas quest\u00f5es como essa da licen\u00e7a maternidade. Al\u00e9m disso, ela toca suas pesquisas na \u00e1rea de F\u00edsica de Sistemas Complexos, desenvolvendo modelos matem\u00e1ticos que descrevem os sinais do c\u00e9rebro. \u201cComo tem muita atividade el\u00e9trica dos neur\u00f4nios, a gente pode olhar para ela n\u00e3o se apegando muito ao processo qu\u00edmico, mas pensando nela como um circuito el\u00e9trico, que a gente em f\u00edsica est\u00e1 acostumado a tratar\u201d, explica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como tr\u00e2nsitos, mapas de aeroportos, inc\u00eandios florestais e vaga-lumes piscando sincronizadamente, Fernanda detalha que o c\u00e9rebro pode ser entendido como um sistema complexo, permitindo calcular seu grau de \u201cdesordem\u201d, ou quantificar se um determinado sinal durante diferentes atividades (dormindo, lendo ou fazendo um c\u00e1lculo matem\u00e1tico, por exemplo) \u00e9 mais ou menos complexo. \u201cComo f\u00edsica eu analiso essas s\u00e9ries temporais desses sinais el\u00e9tricos. Ser\u00e1 que quando a pessoa est\u00e1 dormindo esse sinal tem propriedades diferentes de quando ela t\u00e1 acordada? Ser\u00e1 que, olhando s\u00f3 para esse sinal, d\u00e1 para dizer o que a pessoa est\u00e1 fazendo?\u201d, provoca. Em um de seus projetos, a cientista aplica esses m\u00e9todos para classificar os est\u00e1gios da atividade cerebral durante o sono, que lhe rendeu o pr\u00eamio L\u2019Or\u00e9al Brasil para Mulheres na Ci\u00eancia. Com isso, ela foi reconhecida como uma das sete mulheres com as pesquisas mais importantes do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"448\" height=\"558\" data-src=\"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/secao137-20230306-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20480 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 448px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 448\/558;\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Legenda: Fernanda, ao meio, e as demais premiadas da L\u2019Oreal em capa da revista Marie Claire. Cada uma recebeu R$ 50 mil para continuarem suas pesquisas.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Os desafios nessa trajet\u00f3ria n\u00e3o s\u00e3o poucos e ela se lembra dos tipos de preocupa\u00e7\u00f5es que as mulheres na f\u00edsica mant\u00e9m, que s\u00e3o diferentes em rela\u00e7\u00e3o aos homens. Elas v\u00e3o desde as quest\u00f5es de produtividade e de carreira j\u00e1 apresentadas aqui, mas tamb\u00e9m piadinhas no corredor justificadas com \u201cestava s\u00f3 brincando\u201d e se preocupar com a apar\u00eancia ou roupa na hora de dar aula ou uma palestra &#8211; buscando tanto provar que a vestimenta n\u00e3o importa quanto reafirmar que \u00e9 poss\u00edvel ser mulher e cientista e ser feminina, ao contr\u00e1rio do estere\u00f3tipo. Contudo, mesmo depois de perceber ao longo da sua carreira que \u201cal\u00e9m de mulher cientista, voc\u00ea vira uma m\u00e3e na ci\u00eancia\u201d, Fernanda avalia que vale a pena e que est\u00e1 otimista. \u201cTem um lado positivo em que voc\u00ea tamb\u00e9m percebe que est\u00e1 sendo \u00fatil na comunidade incentivando outras meninas e isso \u00e9 motivador. Ao longo do caminho \u00e9 ruim sofrer com essas quest\u00f5es e ter que lidar com elas, mas ao mesmo tempo eu me encontrei tentando melhorar o ambiente para quem vem depois\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, seu principal conselho para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es de meninas cientistas \u00e9 que elas \u201cprocurem uma rede de apoio. A carreira acad\u00eamica tem obst\u00e1culos independente do g\u00eanero, mas se voc\u00ea j\u00e1 tem uma quest\u00e3o de classe, ra\u00e7a e g\u00eanero que a deixa ainda mais discrepante, haver\u00e1 momentos dif\u00edceis. Ent\u00e3o, procure por pessoas que est\u00e3o no mesmo est\u00e1gio que voc\u00ea e que j\u00e1 passaram por isso, para ver que acontece com outras pessoas. Algumas pessoas estar\u00e3o mais abertas e acess\u00edveis que outras, mas encontre aquelas que servir\u00e3o como mentoras ou apoio na carreira. Isso ajuda muito, \u00e9 uma quest\u00e3o de ter o coletivo e de abrir espa\u00e7o para todo mundo ir junto\u201d, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Mariana Hafiz Professora do Instituto de F\u00edsica da Universidade Federal do Alagoas (UFAL), em Macei\u00f3, Fernanda Selingardi Matias percebeu que se interessava por ci\u00eancia no primeiro ano do Ensino M\u00e9dio, quando fazia Olimp\u00edadas de F\u00edsica &#8211; chegando a participar da etapa nacional. Na \u00e9poca moradora de Recife, no estado de Pernambuco (PE), ela se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":20318,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[250],"tags":[],"class_list":["post-20478","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-secao-137"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20478","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20478"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20478\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20481,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20478\/revisions\/20481"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20318"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20478"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20478"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20478"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}