{"id":20475,"date":"2023-03-06T14:58:54","date_gmt":"2023-03-06T17:58:54","guid":{"rendered":"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=20475"},"modified":"2023-03-06T14:58:55","modified_gmt":"2023-03-06T17:58:55","slug":"elas-estao-vindo-sonia-guimaraes-sobre-mulheres-e-meninas-nas-ciencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/elas-estao-vindo-sonia-guimaraes-sobre-mulheres-e-meninas-nas-ciencias\/","title":{"rendered":"&#8220;Elas est\u00e3o vindo&#8221;: S\u00f4nia Guimar\u00e3es sobre Mulheres e Meninas nas Ci\u00eancias"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por Mariana Hafiz<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Primeira doutora negra em F\u00edsica no Brasil e primeira mulher negra professora do ITA, S\u00f4nia compartilha sua trajet\u00f3ria e conselhos para a futura gera\u00e7\u00e3o de cientistas mulheres<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Segunda melhor aluna das suas turmas, sempre uma das melhores em matem\u00e1tica, S\u00f4nia Guimar\u00e3es \u00e9 a primeira mulher negra doutora em F\u00edsica do Brasil. \u00c9 tamb\u00e9m a primeira mulher negra a se tornar professora do Instituto de Tecnologia Aeron\u00e1utica (ITA), cargo que assumiu quando o Instituto ainda n\u00e3o aceitava meninas entre seus alunos &#8211; o que s\u00f3 mudou em 1996.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, grande parte do seu tempo profissional \u00e9 dedicado a palestras e mentorias para aumentar a inclus\u00e3o de meninas nas ci\u00eancias, n\u00e3o s\u00f3 as incentivando a escolher essas carreiras, mas a permanecer nelas. <em>\u201c<\/em>A gente incentiva as meninas para virem para as exatas, elas conseguem passar no vestibular e no primeiro semestre do primeiro ano fazem C\u00e1lculo 1 e bombam. Muitas desistem e v\u00e3o embora da F\u00edsica, da Matem\u00e1tica, da Qu\u00edmica, enfim, por causa de C\u00e1lculo\u201d, diz a cientista.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com S\u00f4nia, fazer com que as meninas persistam frente a essas dificuldades envolve muito trabalho para desenvolver resili\u00eancia, j\u00e1 que \u201celas entram na classe e os meninos olham para elas do tipo &#8220;aqui n\u00e3o \u00e9 o teu lugar&#8221;. Somado a comportamentos hostis de professores e da dificuldade j\u00e1 pr\u00f3pria do curso, a professora ressalta que algumas conseguem encontrar motiva\u00e7\u00e3o e persistir na carreira, chegando ao cargo de Ministra da Ci\u00eancia e Tecnologia, mas que isso n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, parte da motiva\u00e7\u00e3o veio da m\u00e3e que, com&nbsp; independ\u00eancia financeira, apoiou S\u00f4nia em todas as suas escolhas. \u201cMinha m\u00e3e tinha um buffet de festas, ent\u00e3o ela n\u00e3o precisava, por exemplo, pedir dinheiro para o meu pai. Ela pegava o dinheirinho dela e falava para eu fazer o que tivesse que fazer\u201d, lembra. Mesmo assim, ela teve que superar alguns coment\u00e1rios. \u201cDisseram para mim minha vida inteira que eu nunca ia conseguir aprender f\u00edsica, mas eu sempre sabia o que eu precisava saber. Ent\u00e3o, esse &#8220;voc\u00ea n\u00e3o vai aprender&#8221; n\u00e3o significava nada para mim. Eu poderia ter uma dificuldade ou outra, eu estudei muito e estudo at\u00e9 hoje, mas eu n\u00e3o podia ouvir essa gente porque, no m\u00ednimo, elas estavam erradas\u201d, conclui. Na sua turma de gradua\u00e7\u00e3o, dos 50 alunos ingressantes, somente duas meninas se formaram em tempo regular (ap\u00f3s quatro anos de gradua\u00e7\u00e3o) &#8211; S\u00f4nia era uma delas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Caminhos para mudan\u00e7a<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando S\u00f4nia passou no concurso para se tornar professora do ITA, em 1993, o Instituto ainda n\u00e3o permitia o ingresso de meninas, o que se tornou poss\u00edvel em 1996. Desde ent\u00e3o, a professora se anima com os n\u00fameros de meninas sendo aprovadas no vestibular: foram 16 em 2021, 11 em 2022 e 09 neste ano, incluindo a primeira colocada do vestibular de 2023. \u201cParece pouco, mas em 96 n\u00e3o podia entrar nenhuma. Mesmo na pandemia, quando o mundo parou, entraram 16. Ent\u00e3o elas est\u00e3o vindo, a luz est\u00e1 logo ali!\u201d, comemora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela se lembra que, nas suas turmas de gradua\u00e7\u00e3o, mestrado e doutorado, a propor\u00e7\u00e3o de alunas mulheres era sempre baixa. Poucas meninas, menos ainda negras &#8211; mesmo no doutorado na Inglaterra, via muitas estudantes estrangeiras, mas poucas brasileiras ou negras. Em todos os cursos e institui\u00e7\u00f5es pelos quais passou, ela se recorda da maioria masculina e branca.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f4nia argumenta que, para haver mudan\u00e7as, as cotas s\u00e3o as estrat\u00e9gias mais eficientes. No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio garantir n\u00e3o s\u00f3 o desenvolvimento de pol\u00edticas afirmativas dentro dos programas de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m maneiras de fiscalizar o cumprimento delas. Dessa forma, seria poss\u00edvel evitar casos de fraudes \u00e0s cotas, como auto declara\u00e7\u00f5es falsas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para a professora, a mesma situa\u00e7\u00e3o \u00e9 verdade para que mulheres passem a ocupar tamb\u00e9m cargos de chefia dentro da carreira acad\u00eamica &#8211; chefiar departamentos, compor os comit\u00eas de ag\u00eancias de fomento (ou seja, organiza\u00e7\u00f5es que financiam projetos de pesquisa no pa\u00eds) que selecionam os pesquisadores a receberem verbas para suas pesquisas, e at\u00e9 mesmo cargos de gest\u00e3o em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de ci\u00eancia e tecnologia. \u201c\u00c9 preciso que as pessoas do g\u00eanero masculino n\u00e3o possuam os departamentos, n\u00e3o possuam o CNPq, a Capes, que s\u00e3o \u00f3rg\u00e3os que financiam as bolsas, como as de produtividade, por exemplo\u201d, afirma S\u00f4nia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsas de produtividade s\u00e3o uma modalidade espec\u00edfica de recursos concedida a pesquisadores de alto destaque dentro de suas \u00e1reas de pesquisa. Elas podem ser somadas a outras verbas que os pesquisadores j\u00e1 recebam, e s\u00e3o uma esp\u00e9cie de recompensa ao trabalho de alta qualidade produzido. Os crit\u00e9rios variam a depender da \u00e1rea do conhecimento, mas no geral as bolsas s\u00e3o concedidas para aqueles cientistas que possuam anos de dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de outros pesquisadores, n\u00edvel constante de publica\u00e7\u00e3o relevantes para a \u00e1rea e de alto impacto, al\u00e9m de lideran\u00e7a de grupos e projetos de pesquisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para S\u00f4nia, o problema est\u00e1 que, na maioria, essas bolsas s\u00e3o direcionadas a pesquisadores homens &#8211; que tamb\u00e9m comp\u00f5e grande parte dos comit\u00eas que fazem a sele\u00e7\u00e3o dos bolsistas de produtividade. \u201cSe voc\u00ea olhar o n\u00famero de meninas que publicam muito \u00e9 imenso. Por que \u00e9 que elas n\u00e3o t\u00eam bolsa de produtividade?\u201d, questiona.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo pode ser dito sobre cargos de chefia em ci\u00eancia. Um estudo do ano passado mostrou que, apesar de a maioria de alunos matriculados em programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o (que, no Brasil, \u00e9 onde se desenvolve pesquisas e formam os pesquisadores do pa\u00eds) serem mulheres, elas s\u00e3o minoria em cargos de chefia. Sobre isso, S\u00f4nia ressalta que \u201cexistem muitas meninas com muita publica\u00e7\u00e3o no mestrado, no doutorado e com pr\u00eamios que v\u00e3o prestar concurso em v\u00e1rios lugares e simplesmente n\u00e3o s\u00e3o aprovadas. A pergunta \u00e9: por que elas n\u00e3o foram aprovadas no concurso se elas s\u00e3o t\u00e3o qualificadas?\u201d, provoca.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisadora, que tamb\u00e9m \u00e9 inventora &#8211; S\u00f4nia tem uma patente de detectores que desenvolveu e que s\u00e3o utilizados em m\u00edsseis para identificar avi\u00f5es em movimento &#8211; defende que, tamb\u00e9m nesses casos, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 que os atuais dirigentes e \u201cdonos\u201d dos departamentos estejam atentos \u00e0s a\u00e7\u00f5es afirmativas, bem como \u00e0 diversidade, justi\u00e7a e inclus\u00e3o. Esses s\u00e3o temas com os quais a professora trabalha tamb\u00e9m com os demais membros da Comiss\u00e3o para Justi\u00e7a, Equidade, Diversidade e Inclus\u00e3o (JEDI) da Sociedade Brasileira de F\u00edsica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para as meninas que desejam um dia ser cientistas, a professora S\u00f4nia deixa um conselho: <em>\u201cEstudem c\u00e1lculo, como loucas porque \u00e9 uma coisa que voc\u00eas n\u00e3o viram no ensino m\u00e9dio. Estudem muito matem\u00e1tica, mas venham para&nbsp; F\u00edsica, Qu\u00edmica, Matem\u00e1tica, Engenharias e quando voc\u00eas ouvirem que isso \u00e9 para homem, repitam que \u00e9 disso que voc\u00eas gostam e que far\u00e3o o curso que quiserem. Para as meninas negras: eu sou cientista, sou inventora e n\u00e3o sou branca. Quer dizer, o futuro est\u00e1 nas suas m\u00e3os, v\u00e1 atr\u00e1s daquilo que voc\u00ea quer. N\u00e3o \u00e9 aquilo que seu pai, sua m\u00e3e, seu av\u00f4, tia, namorado ou seu marido querem. Tem que ser o que voc\u00ea quer porque, al\u00e9m de tudo, n\u00e3o vai ser f\u00e1cil. \u00c9 dif\u00edcil, mas voc\u00ea vai vencer e vai poder dizer para todo mundo que voc\u00ea conseguiu\u201d<\/em>, conclui.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Mariana Hafiz Primeira doutora negra em F\u00edsica no Brasil e primeira mulher negra professora do ITA, S\u00f4nia compartilha sua trajet\u00f3ria e conselhos para a futura gera\u00e7\u00e3o de cientistas mulheres Segunda melhor aluna das suas turmas, sempre uma das melhores em matem\u00e1tica, S\u00f4nia Guimar\u00e3es \u00e9 a primeira mulher negra doutora em F\u00edsica do Brasil. \u00c9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":20476,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[250],"tags":[],"class_list":["post-20475","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-secao-137"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20475","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20475"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20475\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20477,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20475\/revisions\/20477"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20476"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20475"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20475"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20475"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}