{"id":20371,"date":"2023-03-01T10:45:23","date_gmt":"2023-03-01T13:45:23","guid":{"rendered":"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=20371"},"modified":"2023-03-01T10:45:24","modified_gmt":"2023-03-01T13:45:24","slug":"o-que-move-o-mundo-sao-perguntas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/o-que-move-o-mundo-sao-perguntas\/","title":{"rendered":"O que move o mundo s\u00e3o perguntas"},"content":{"rendered":"\n<p><em>As ideias do prof. Marcelo Knobel para se encantar com ci\u00eancia e combater as pseudoci\u00eancias&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por Mariana Hafiz<\/p>\n\n\n\n<p>O que curiosidade tem a ver com negacionismo? Por que \u00e9 importante que o pensamento cr\u00edtico seja estimulado especialmente a partir da inf\u00e2ncia? Isso pode ter diferen\u00e7a na hora de se vacinar, tomar algum rem\u00e9dio ou consumir informa\u00e7\u00e3o sobre ci\u00eancia na internet?<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu \u00faltimo livro, \u201cA Ilus\u00e3o da Lua: ideias para decifrar o mundo por meio da ci\u00eancia e combater o negacionismo\u201d, o professor Marcelo Knobel argumenta que sim. Composto por tr\u00eas partes, o livro busca esclarecer tanto a forma com que a ci\u00eancia est\u00e1 presente em todos os aspectos da vida cotidiana quanto dar sugest\u00f5es para diminuir os efeitos do negacionismo cient\u00edfico. Al\u00e9m disso, traz ideias de como lidar com as pseudoci\u00eancias, ou seja, promessas de curas, tratamentos ou qualquer outra ideia camuflada com linguagem cient\u00edfica, mas que n\u00e3o possui embasamento na ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Conciso na linguagem e perene nas ideias, em 152 p\u00e1ginas o livro traz quest\u00f5es importantes para o futuro de um pa\u00eds e mundo atordoados pelos escapes \u00e0s certezas cient\u00edficas. \u00c9 poss\u00edvel lembrar, por exemplo, que a ades\u00e3o vacinal no pa\u00eds est\u00e1 historicamente baixa desde 2015 e que, com a pandemia, uma nova onda de confronto \u00e0s evid\u00eancias ficou mais vis\u00edvel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de n\u00e3o serem causadas unicamente por descren\u00e7a \u00e0 ci\u00eancia, essas posi\u00e7\u00f5es se tornam particularmente perigosas quando s\u00e3o extrapoladas para o n\u00edvel das decis\u00f5es p\u00fablicas \u2014 como definir quais tratamentos ser\u00e3o incorporados pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). Nesses casos, dinheiro p\u00fablico seria utilizado para financiar interven\u00e7\u00f5es que n\u00e3o seriam eficazes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, segundo o autor, \u00e9 importante que cada vez mais cientistas e institui\u00e7\u00f5es de pesquisas levem a ci\u00eancia para al\u00e9m dos muros acad\u00eamicos, se aproximando da sociedade. Isso passa tamb\u00e9m por levar mais assuntos sobre ci\u00eancia e tecnologia \u00e0 imprensa, focando n\u00e3o s\u00f3 nos resultados das pesquisas, mas nas perguntas \u2014 as quais s\u00e3o a for\u00e7a motriz do conhecimento. No livro, essa seria uma forma institucionalizada de lidar com o negacionismo atrav\u00e9s da aproxima\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e diferentes esferas da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe outro lado, contudo, de n\u00edveis mais individuais de escolhas, em que ter mais conhecimento sobre ci\u00eancia pode ser ben\u00e9fico. Quando falamos de decis\u00f5es di\u00e1rias que envolvem ci\u00eancia \u2014 escolher se e qual rem\u00e9dio tomar, vacinar-se ou vacinar um filho(a), em que momento sair de casa durante uma pandemia, usar m\u00e1scara em p\u00fablico ou n\u00e3o, aderir a um tratamento sem efic\u00e1cia comprovada \u2014 a qualidade da informa\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos aspectos envolvidos. Neste sentido, a desinforma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 relevante e Marcelo prop\u00f5e no livro que o car\u00e1ter investigativo da ci\u00eancia tamb\u00e9m pode ser aliado das estrat\u00e9gias para combat\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ele, estimular a curiosidade, principalmente nas crian\u00e7as, \u00e9 fundamental nesse sentido porque, na verdade, a ci\u00eancia nada mais \u00e9 do que um ac\u00famulo de tentativas de respostas a v\u00e1rios mist\u00e9rios sobre o mundo em que habitamos \u2014 seja as caracter\u00edsticas f\u00edsicas e naturais dos planetas ou os mecanismos das sociedades e diferentes culturas coexistentes. Essa \u00e9 uma das primeiras coisas que o professor argumenta no livro, narrado em primeira pessoa e mescla experi\u00eancias pessoais com os aprendizados de um f\u00edsico, professor e ex-reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp): \u201cAs crian\u00e7as t\u00eam muita curiosidade, excesso, talvez, que infelizmente vai diminuindo com o passar dos anos. Na realidade, n\u00e3o \u00e9 a vontade de entender o mundo que vai diminuindo, \u00e9 a frustra\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as com as respostas que vai aumentando\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que o efeito dessa perda gradual, por\u00e9m progressiva do encantamento frente aos processos que levam ao ac\u00famulo de conhecimento ficam muito marcadas com a penetra\u00e7\u00e3o das redes sociais e m\u00eddias digitais no cotidiano: certezas infal\u00edveis s\u00e3o muito sedutoras e circulam mais enquanto o conhecimento cient\u00edfico, lapidado por s\u00e9culos e pelo trabalho conjunto de grupos de cientistas aparentemente n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o atraente. O mesmo acontece com as not\u00edcias profissionais (ou a categoria de informa\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, o autor prop\u00f5e que uma maior compreens\u00e3o da l\u00f3gica do conhecimento cient\u00edfico ajuda a navegar pelos diferentes tipos de informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edveis atualmente, ou no m\u00ednimo a gerar mais resili\u00eancia \u00e0s incertezas e apre\u00e7o \u00e0s perguntas, ao inv\u00e9s de focar nos resultados. \u201cA curiosidade tem que vir acompanhada com o espanto, com a beleza, com o inusitado, tem que vir com sentimentos que despertem a vontade de querer saber mais. Para fazer uma boa divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica a gente deve focar no processo porque ao fazer isso a gente incentiva o pensamento cr\u00edtico\u201d, diz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um maior esclarecimento sobre o m\u00e9todo cient\u00edfico tamb\u00e9m pode ser particularmente importante para, ao receber informa\u00e7\u00f5es no WhatsApp ou redes sociais, seja mais f\u00e1cil identificar os impostores. \u00c9 nesse sentido que o pensamento cr\u00edtico pode ser um aliado ao combate \u00e0s pseudoci\u00eancias \u2014 deixando claro que aqui o perigo diz respeito ao que se vende como ci\u00eancia sem s\u00ea-la, especialmente em tratamentos m\u00e9dicos, o que n\u00e3o entra no m\u00e9rito das religi\u00f5es ou outros sistemas de cren\u00e7a, que n\u00e3o pretendem se fingir de ci\u00eancia e sequer precisam faz\u00ea-lo para ter import\u00e2ncia e credibilidade na viv\u00eancia dos indiv\u00edduos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu gosto muito de uma defini\u00e7\u00e3o que diz que a diferen\u00e7a entre a ci\u00eancia e a pseudoci\u00eancia \u00e9 que a ci\u00eancia acredita nas evid\u00eancias e est\u00e1 disposta a mudar suas hip\u00f3teses baseadas nessas evid\u00eancias, o que n\u00e3o acontece com a pseudoci\u00eancia. Ent\u00e3o, estar sempre se questionando, sempre observando, sempre verificando \u00e9 um papel absolutamente essencial nas ci\u00eancias\u201d, afirma o autor. \u201cAcho que isso \u00e9 o mais importante e relevante para mostrar como a ci\u00eancia funciona, que \u00e9 a partir de um pensamento cr\u00edtico e de uma observa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do mundo que nos cerca\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O livro \u00e9 uma das iniciativas do professor, que reuniu ideias que foi acumulando ao longo da sua profiss\u00e3o como f\u00edsico e pesquisador e durante sua gest\u00e3o como reitor da Unicamp. Ele tamb\u00e9m trabalha com esses interesses nas pesquisas que realiza sobre Percep\u00e7\u00e3o P\u00fablica da Ci\u00eancia e Tecnologia no Laborat\u00f3rio de Estudos Avan\u00e7ados em Jornalismo da Unicamp (Labjor).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Seu diagn\u00f3stico \u00e9 que ainda falta entender e aplicar muito conhecimento sobre engajar as pessoas com ci\u00eancia \u2014 o que n\u00e3o ser\u00e1 uma tarefa f\u00e1cil e que talvez signifique abdicar do rigor cient\u00edfico. \u201cEu acredito que a gente tem que encontrar uma linguagem adequada para fazer divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Acho que a gente n\u00e3o t\u00e1 conseguindo atingir o nosso p\u00fablico, de alguma maneira n\u00e3o est\u00e1 chegando nas pessoas, n\u00e3o est\u00e1 conseguindo se comunicar de uma maneira que as pessoas queiram ver e ouvir. A gente tem que encontrar mecanismos que chegue nas pessoas, talvez explorar outras m\u00eddias, acho que \u00e9 por a\u00ed\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As ideias do prof. Marcelo Knobel para se encantar com ci\u00eancia e combater as pseudoci\u00eancias&nbsp; Por Mariana Hafiz O que curiosidade tem a ver com negacionismo? Por que \u00e9 importante que o pensamento cr\u00edtico seja estimulado especialmente a partir da inf\u00e2ncia? 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