{"id":20270,"date":"2023-01-24T11:18:58","date_gmt":"2023-01-24T14:18:58","guid":{"rendered":"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=20270"},"modified":"2023-01-24T11:20:03","modified_gmt":"2023-01-24T14:20:03","slug":"sbf-entrevista-o-professor-fernando-lang-if-ufrgs-ganhador-do-premio-de-divulgacao-cientifica-ernesto-hamburger-2022","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/sbf-entrevista-o-professor-fernando-lang-if-ufrgs-ganhador-do-premio-de-divulgacao-cientifica-ernesto-hamburger-2022\/","title":{"rendered":"SBF entrevista o Professor Fernando Lang (IF-UFRGS), ganhador do Pr\u00eamio de Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica Ernesto Hamburger 2022"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A import\u00e2ncia de elaborar perguntas e pesquisas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Por Roger Marzochi<\/h5>\n\n\n\n<p><em>Professor Fernando Lang, da UFRGS, dedica a vida em responder quest\u00f5es de leigos sobre fen\u00f4menos do cotidiano e defende que o p\u00fablico deve ser incentivado a pesquisar<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e3o importante quanto obter a resposta \u00e9 saber fazer a pergunta. E a pesquisa tem papel fundamental nesse processo de formula\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es, isso em qualquer \u00e1rea da nossa vida. Essa reflex\u00e3o, que \u00e9 extremamente importante para o desenvolvimento da pr\u00f3pria pesquisa cient\u00edfica, o ga\u00facho Fernando Lang faz sobre a atividade que mais faz seus olhos brilharem: responder quest\u00f5es do p\u00fablico em geral sobre fen\u00f4menos f\u00edsicos intrigantes e, at\u00e9 mesmo, corriqueiros do dia a dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essa sua paix\u00e3o, ele recebeu o Pr\u00eamio de Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica Ernesto Hamburger 2022, concedido pela Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF). \u201cPra mim foi uma honra, at\u00e9 porque conheci e convivi com o professor Ernesto: a gente participou de atividades de ensino de f\u00edsica. Foi uma grande honra receber esse pr\u00eamio que honra o nome desse grande professor e divulgador cient\u00edfico\u201d, diz Lang.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 73 anos, Lang tem uma experi\u00eancia invej\u00e1vel de 52 anos como professor de F\u00edsica. Em uma \u00e9poca da vida, chegou a lecionar em tr\u00eas universidades ao mesmo tempo. Hoje, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ele integra desde 2010 o Centro de Refer\u00eancia em Ensino de F\u00edsica (CREF), coordenado pelos professores Leonardo Heidemann e Eliane Veit, respondendo \u00e0s quest\u00f5es do p\u00fablico e combatendo fake news no \u201cPergunte ao CREF\u201d. Qualquer pessoa pode acessar o site <a href=\"https:\/\/cref.if.ufrgs.br\/\">https:\/\/cref.if.ufrgs.br\/<\/a> e direcionar sua quest\u00e3o, que ser\u00e1 respondida n\u00e3o apenas por Lang, mas por outros profissionais tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, o site tem entre 2 a 4 mil visualiza\u00e7\u00f5es por dia. Nos anos iniciais da pandemia de COVID-19, esse n\u00famero chegou ao recorde de 15 mil acessos di\u00e1rios, uma vez que a plataforma tamb\u00e9m foi usada para rebater <em>fake news<\/em> sobre vacinas e sobre o pr\u00f3prio v\u00edrus. Desde 2013, quando o site come\u00e7ou a aferir audi\u00eancia, o Pergunte ao CREF soma um total de 11 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu acho que essa voca\u00e7\u00e3o para responder ao p\u00fablico \u00e9 decorr\u00eancia de toda a minha trajet\u00f3ria como professor. Eu trabalhei muito em forma\u00e7\u00e3o de professores em cursos de licenciatura. E os alunos nos trazem quest\u00f5es para a sala de aula\u201d, diz Lang, que lembra que tudo come\u00e7ou em 2005. \u00c0 \u00e9poca, quando tinha um tempo livre, ele acessava o site Yahoo! Respostas, hoje descontinuado, e buscava explicar \u00e0s pessoas quest\u00f5es que geravam curiosidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez, por exemplo, Lang se deparou com a pergunta de um menino que queria saber se uma pessoa ou animal virava um monte de cinzas ap\u00f3s ser atingido por um raio, como ele assistia nos desenhos animados. O professor viu que muitos usu\u00e1rios faziam chacota com a pergunta do rapaz e se apressou a explicar as implica\u00e7\u00f5es f\u00edsicas de um acidente desse tipo. \u201cDiversas pessoas partiram para goza\u00e7\u00e3o, mas eu respondi s\u00e9rio. E o menino me agradeceu. \u00c0s vezes a gente recebe um retorno\u201d, lembra.<\/p>\n\n\n\n<p>Lang n\u00e3o apenas respondia \u00e0s quest\u00f5es no Yahoo! Respostas como tamb\u00e9m as compartilhava com seus colegas na universidade. E, um dia, a professora Eliane Veit o chamou para fazer um projeto que \u00e0 \u00e9poca se chamaria \u201cPergunte ao Lang\u201d. \u201cE eu disse: \u2018n\u00e3o, porque eu n\u00e3o tenho compet\u00eancia para responder todas as perguntas\u2019. E sugeri colocar nossos colegas na roda, criando o Pergunte ao CREF. E o site j\u00e1 iniciou em 2010 com cerca de 200 postagens que eu trouxe do Yahoo. E assim foi criado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>As postagens s\u00e3o organizadas em 50 categorias, que v\u00e3o desde a Ac\u00fastica at\u00e9 Mec\u00e2nica Qu\u00e2ntica. O site j\u00e1 respondeu quest\u00f5es como o \u201cmist\u00e9rio\u201d das sombras dos fios dos postes de energia el\u00e9trica, sobre efeitos m\u00e1gicos de ru\u00eddos de programas de \u00e1udio que alterariam as ondas cerebrais, sobre a vantagem de se encher os pneus do carro com nitrog\u00eanio, sobre a curvatura do espa\u00e7o-tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Certa vez, Lang respondeu na hora uma pergunta que acabara de ser feita por um paulistano, que viajara 300 km para o interior do Estado num feriado e estava preocupado porque havia deixado o carregador do celular ligado na tomada. O homem estava com tanto receio que o carregador pudesse explodir que pensava at\u00e9 mesmo em voltar para casa apenas para retirar o aparelho da tomada. \u201cEu disse para ele n\u00e3o se preocupar: quantas coisas n\u00f3s deixamos conectadas em casa, porque vai se preocupar com o carregador do celular? As pessoas acham que se o carregador est\u00e1 na tomada a energia entra e n\u00e3o sai e pode acumular grande energia e acontecer alguma coisa. E ele me agradeceu, porque eu o respondi direto para o e-mail dele. E ele ficou tranq\u00fcilo\u201d, lembra Lang.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra d\u00favida curiosa que o professor ajudou a resolver foi o de uma mo\u00e7a que sofria com eletricidade est\u00e1tica. Lang sup\u00f5e que ela era rec\u00e9m casada. E ela havia adquirido um colch\u00e3o que faz massagens, e achava que os choques que ela dava nas pessoas era decorrente do sistema el\u00e9trico do colch\u00e3o. A mo\u00e7a chegou a fazer contato com a f\u00e1brica do produto, que em visita \u00e0 sua casa, fez at\u00e9 mesmo um aterramento do colch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, infelizmente, o problema persistia. Lang explicou que, em primeiro lugar, ela morava em uma cidade com baixa umidade relativa do ar, que propicia esse fen\u00f4meno; e, em segundo lugar, a eletricidade est\u00e1tica era causada pela fric\u00e7\u00e3o do colch\u00e3o com a roupa de cama. \u201cN\u00e3o tem qualquer rela\u00e7\u00e3o com a parte el\u00e9trica, que faz o colch\u00e3o vibrar. E isso n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o. A solu\u00e7\u00e3o que teria \u00e9 colocar uma pulseira conectada no aterramento da rede el\u00e9trica. As pessoas fazem isso onde a eletricidade est\u00e1tica pode danificar equipamentos, levando as pessoas a trabalharem at\u00e9 com tornozeleira ou pulseira aterrada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m das quest\u00f5es curiosas do cotidiano, Lang avalia tamb\u00e9m que o Pergunte ao CREF tem grande import\u00e2ncia em um momento cr\u00edtico de desinforma\u00e7\u00e3o pelas redes sociais e o crescimento de teorias conspirat\u00f3rias e estapaf\u00fardias, como a da Terra Plana. Ele lembra, por exemplo, que por volta de 2015 j\u00e1 se preocupava muito com os terraplanistas, mas era motivo de goza\u00e7\u00e3o de seus colegas na academia. Em 2019, pesquisa do Datafolha indicava que essa comunidade abrangia 7% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, cerca de 11 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo in\u00edcio, quando comecei a falar em Terra Plana, em 2015, meus colegas achavam que eu estava dando uma de Dom Quixote. Hoje muitos deles se conscientizaram at\u00e9 pelo crescimento do negacionismo, muitos que me criticavam voltaram atr\u00e1s. Mas de modo geral a academia fica ausente dessas discuss\u00f5es. Tem muito boa divulga\u00e7\u00e3o cientifica na internet, tem bons divulgadores cient\u00edficos. Mas, de modo geral, esse pessoal n\u00e3o tem liga\u00e7\u00e3o com a academia\u201d, conta o professor.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora haja necessidade de alguns de n\u00f3s termos uma rela\u00e7\u00e3o m\u00edstica com a vida sob o prisma de aspectos espirituais, filos\u00f3ficos e antropol\u00f3gicos, h\u00e1 uma abordagem deturpada da ci\u00eancia que em certo grau \u00e9 captado pelo Pergunte ao CREF. H\u00e1 quest\u00f5es que Lang recebe que ele diz que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender nem o que a pessoa est\u00e1 querendo perguntar. \u201c\u00c0s vezes, acabo retornando para a pessoa para que ela explique melhor. Mas h\u00e1 muita coisa que s\u00e3o completamente loucas, fora do que um f\u00edsico possa responder.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E Lang n\u00e3o poupa a imprensa na difus\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es incorretas, motivo pelo qual ele decidiu que, ap\u00f3s responder a um jornalista de um ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o, as respostas estar\u00e3o na \u00edntegra publicadas no Pergunte ao CREF. E com o n\u00famero de postagens j\u00e1 realizadas at\u00e9 agora, chegamos ao ponto de reflex\u00e3o com o qual se iniciou o texto sobre esse divulgador cient\u00edfico. Lang v\u00ea com certa tristeza que as pessoas n\u00e3o sabem realizar pesquisas na internet, seja pelo Google ou por meio do buscador do Pergunte ao CREF: muitas quest\u00f5es que ele recebe j\u00e1 foram respondidas.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele percebe que a falta de interesse &#8211; ou de tempo &#8211; pela pesquisa \u00e9 uma das respons\u00e1veis pela dissemina\u00e7\u00e3o de mensagens falsas. \u201cAs pessoas t\u00eam que ser incentivadas a pesquisar. Elas simplesmente repassam o que recebem no <em>WhatsApp<\/em> de um amigo. Elas n\u00e3o checam e propagam as <em>fake news<\/em>. Mas isso requer tempo. As pessoas vivem em um mundo que n\u00e3o t\u00eam tempo para fazer isso.\u201d Por isso, o seu trabalho \u00e9 muito importante, n\u00e3o apenas para a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, buscando aproximar das pessoas temas complexos traduzidos em acontecimentos do cotidiano, mas tamb\u00e9m rebater as mensagens falsas. \u201cA divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 muito importante, pois pode contribuir para vencer essas id\u00e9ias estapaf\u00fardias de Terra Plana, antivacina e muitas outras.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A import\u00e2ncia de elaborar perguntas e pesquisas Por Roger Marzochi Professor Fernando Lang, da UFRGS, dedica a vida em responder quest\u00f5es de leigos sobre fen\u00f4menos do cotidiano e defende que o p\u00fablico deve ser incentivado a pesquisar T\u00e3o importante quanto obter a resposta \u00e9 saber fazer a pergunta. 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