{"id":19939,"date":"2022-11-07T09:50:20","date_gmt":"2022-11-07T12:50:20","guid":{"rendered":"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=19939"},"modified":"2022-11-07T09:50:22","modified_gmt":"2022-11-07T12:50:22","slug":"moyses-nussenzveig-icone-da-ciencia-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/moyses-nussenzveig-icone-da-ciencia-nacional\/","title":{"rendered":"MOYS\u00c9S NUSSENZVEIG, \u00cdCONE DA CI\u00caNCIA NACIONAL"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Luiz Davidovich<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 5 de novembro, perdemos uma luz intensa, um farol. Perda para a ci\u00eancia e o pa\u00eds, para familiares, disc\u00edpulos e amigos, perdemos um gigante, um \u00edcone, um humanista.\u00a0 Cientista renomado, autor de artigos e livros prestigiados internacionalmente, comprometido com o ensino de ci\u00eancia, defensor destemido de cientistas perseguidos e do apoio \u00e0 ci\u00eancia, Moys\u00e9s far\u00e1 muito falta, nesses tempos desafiadores, em que o retorno da esperan\u00e7a se beneficiaria da luz intensa de sua personalidade iluminada, para ajudar a tra\u00e7ar caminhos seguros rumo a um futuro melhor de um pa\u00eds sofrido.<\/p>\n\n\n\n<p>Em artigo publicado na Folha de S\u00e3o Paulo em 24 de agosto de 1994, com o t\u00edtulo \u201cO Exterminador do Futuro\u201d, Moys\u00e9s escreveu: \u201cO que t\u00eam em comum Arnold Schwarznegger com a equipe econ\u00f4mica do governo Collor? &nbsp;Ambos desempenham o papel de `exterminadores do futuro\u2019, embora em sentidos diversos: o ator, representando o cyborg enviado do futuro para eliminar, no presente, amea\u00e7as potenciais; a pol\u00edtica&nbsp; econ\u00f4mica do governo, exterminando a ci\u00eancia brasileira \u2014&nbsp; e juntamente com ela, nosso futuro.\u201d Esses coment\u00e1rios, representativos de sua acuidade, aplicam-se perfeitamente ao atual governo. E testemunham a milit\u00e2ncia de Moys\u00e9s pela causa da ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Participou de comiss\u00f5es importantes para o planejamento da ci\u00eancia, foi Presidente da Sociedade Brasileira de F\u00edsica, criou e dirigiu o Departamento de F\u00edsica-Matem\u00e1tica da USP, dirigiu o Instituto de F\u00edsica da USP, participou de v\u00e1rios conselhos cient\u00edficos e editoriais no Brasil e no exterior, idealizou o Programa de Laborat\u00f3rios Associados que serviu de inspira\u00e7\u00e3o para o&nbsp; Programa de N\u00facleos de Excel\u00eancia do MCT (PRONEX). &nbsp;Foi fundador e coordenador da Coordena\u00e7\u00e3o de Programas de Estudos Avan\u00e7ados (COPEA) da UFRJ, um programa interdisciplinar com ciclos de palestras para o p\u00fablico geral, dadas por especialistas nacionais e internacionais, que deu origem a livros de divulga\u00e7\u00e3o de alta qualidade, um dos quais, sobre Complexidade e Caos, foi agraciado pelo pr\u00eamio Jabuti do ano 2000.<\/p>\n\n\n\n<p>A dimens\u00e3o atemporal est\u00e1 presente em seus trabalhos cient\u00edficos, que n\u00e3o tratavam de temas momentaneamente na moda e continuam a ser refer\u00eancia obrigat\u00f3ria, muitos anos depois de publicados. Entre eles, menciono tr\u00eas que tiveram e continuam a ter forte impacto, descrevendo a f\u00edsica do arco-\u00edris (\u201cTheory of the Rainbow\u201d) e do efeito aur\u00e9ola (\u201cTheory of the Glory\u201d), e que reinterpretam a difra\u00e7\u00e3o como um fen\u00f4meno de tunelamento (\u201cDiffraction as Tunneling\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Por que trabalhar nesses temas? Moys\u00e9s deu a resposta, em entrevista publicada na Revista da FAPESP: \u201cTive muita sorte: s\u00f3 trabalhei em temas que considero bonitos. Fico feliz de ter contribu\u00eddo com o entendimento de coisas t\u00e3o belas como a aur\u00e9ola. O que mais me motiva a estudar um assunto, definitivamente, \u00e9 que ele seja belo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Seus tr\u00eas livros cient\u00edficos continuam impactantes em diversas \u00e1reas de pesquisa, sobre Causalidade e Rela\u00e7\u00f5es de Dispers\u00e3o, \u00d3tica Qu\u00e2ntica e Efeitos de Difra\u00e7\u00e3o em Espalhamento Semicl\u00e1ssico. Rigor, clareza na explana\u00e7\u00e3o, apresenta\u00e7\u00e3o guiada pela beleza do tema, s\u00e3o as marcas de seus trabalhos.<\/p>\n\n\n\n<p>[1] Professor Em\u00e9rito, Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua atividade de pesquisa teve amplo reconhecimento: foi agraciado com o Pr\u00eamio Max Born da Optical Society of America (1986), tornou-se Fellow dessa sociedade (1987) e da American Physical Society (1993) e foi homenageado com a cria\u00e7\u00e3o de uma c\u00e1tedra que leva seu nome na Universidade de Tel-Aviv (1993).&nbsp; \u00c9 Membro Titular da Academia Brasileira de Ci\u00eancias desde 1974, da Academia Mundial de Ci\u00eancias (TWAS) desde 2001, da Academia de Ci\u00eancias da Am\u00e9rica Latina, da qual foi membro fundador, desde 1982, e recebeu a Gr\u00e3-Cruz da Ordem Nacional do M\u00e9rito Cient\u00edfico e o Pr\u00eamio \u00c1lvaro Alberto de Ci\u00eancia e Tecnologia em 1995. Recebeu o Pr\u00eamio Jabuti nos anos 1999 e 2000.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascido em S\u00e3o Paulo, em 23 de agosto de 1932, na juventude chegou a contemplar ser diretor de cinema. O tamanho de sua filmoteca \u00e9 consequ\u00eancia dessa primeira paix\u00e3o: cerca de 500 t\u00edtulos, incluindo cl\u00e1ssicos do cinema. Vencedor de um concurso da Alliance Fran\u00e7aise, seu destino voltou-se para a ci\u00eancia: cursou um ano de Matem\u00e1tica em Paris em 1951 e, retornando ao Brasil, foi admitido na USP, sem vestibular, graduando-se em F\u00edsica em 1954. Concluiu seu Doutorado em F\u00edsica em 1957, na USP, sob a orienta\u00e7\u00e3o do Professor Guido Beck, renomado f\u00edsico austr\u00edaco, com quem teve uma \u201crela\u00e7\u00e3o de pai para filho\u201d, segundo Moys\u00e9s. Seu per\u00edodo de P\u00f3s-Doutoramento incluiu passagens por Eindhoven (1958), Utrecht (1959), Birmingham e Z\u00fcrich (1960).<\/p>\n\n\n\n<p>De volta ao Brasil, trabalhou no Centro Brasileiro de Pesquisas F\u00edsicas, onde chegou a Professor Titular em 1962, com apenas 29 anos. Em 1963, foi para o Courant Institute da New York University, como Professor Visitante. Os acontecimentos pol\u00edticos brasileiros de 1964 fizeram com que permanecesse nos Estados Unidos at\u00e9 1975, primeiro como visitante no Institute for Advanced Studies de Princeton (1964-1965) e na Universidade de Rochester (1965-1968), e depois como Pesquisador Senior e Professor Titular desta \u00faltima (1968-1975).<\/p>\n\n\n\n<p>Acolheu-me na Universidade de Rochester, quando deixei o Brasil, em 1969, expulso da universidade, v\u00edtima do Decreto 477 da ditadura militar. L\u00e1, tive o privil\u00e9gio de t\u00ea-lo como professor em um maravilhoso curso de eletromagnetismo e como orientador de minha tese de doutorado. Separado que fui, traumaticamente, dos amigos e da fam\u00edlia, Moys\u00e9s e Micheline ocuparam esse lugar, foram uma fam\u00edlia para mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos Estados Unidos, liderou manifesta\u00e7\u00f5es de cientistas norte-americanos em defesa dos cientistas perseguidos pela ditadura e publicou um artigo, na revista Science, sobre as persegui\u00e7\u00f5es a cientistas na Am\u00e9rica Latina, pois elas ocorriam n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas tamb\u00e9m na Argentina.<\/p>\n\n\n\n<p>Retornando ao Brasil, foi Professor Titular da USP (1975-1983) e da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (1983-1994). Em 1994, tornou-se Professor Titular do Instituto de F\u00edsica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, septuagen\u00e1rio, tornou-se Professor Em\u00e9rito da UFRJ em 2004, ap\u00f3s a aposentadoria compuls\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, as atividades de ensino e de divulga\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia sempre ocuparam lugar de destaque em seu trabalho. Didata de exposi\u00e7\u00e3o clara e cativante, seus cursos s\u00e3o refer\u00eancias para estudantes e professores. Foi idealizador de um kit de ci\u00eancia para a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, constru\u00eddo com a participa\u00e7\u00e3o de um conjunto de cientistas. E que aguarda, ainda, ser reconhecido e utilizado para a inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de jovens.<\/p>\n\n\n\n<p>Motivado pela beleza dos temas que pesquisava, Moys\u00e9s era de fato um artista da ci\u00eancia: suas palestras eram magn\u00edficas e a profundidade e a beleza de suas apresenta\u00e7\u00f5es impactavam audi\u00eancias que lotavam audit\u00f3rios. Fez mais que isso: escreveu uma cole\u00e7\u00e3o maravilhosa de f\u00edsica b\u00e1sica (Pr\u00eamio Jabuti de 1999), muito superior, pelo rigor e clareza, a outros livros, traduzidos do ingl\u00eas, frequentemente adotados em nossas universidades.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 alguns anos, aprofundou-se na biologia, que descrevia em bel\u00edssimas palestras, apreciadas com entusiasmo no Brasil e no exterior. Criou um laborat\u00f3rio de pin\u00e7as \u00f3ticas na UFRJ, &nbsp;influenciando, com seu entusiasmo e sua curiosidade, jovens pesquisadores nessa \u00e1rea, coautores, com Moys\u00e9s, de artigos importantes. Escreveu um belo livro sobre a origem da vida para o p\u00fablico geral, publicado em 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, temos que lidar com essa falta sentida e dif\u00edcil de absorver. Mas sua obra continua, fazemos parte dela, todas as milhares de pessoas que usufru\u00edram de sua conviv\u00eancia e seus ensinamentos, que assistiram suas palestras inspiradoras, que aprenderam f\u00edsica em seus cursos e seus livros e que foram contagiadas pela beleza de sua ci\u00eancia. Esse \u00e9 o seu legado, aqui est\u00e1 e permanecer\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ouvir alguns dos depoimentos do Prof. Moys\u00e9s durante a pandemia, assistam as entrevistas que ele deu ao Prof. Lu\u00eds Carlos Bassalo Crispino nos links abaixo:<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/youtu.be\/zOUSShReMmU\" rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\">https:\/\/youtu.be\/zOUSShReMmU<\/a>&nbsp;(parte 1)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/youtu.be\/YP6SAckwIpc\" rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\">https:\/\/youtu.be\/YP6SAckwIpc<\/a>&nbsp;(parte2)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Davidovich No dia 5 de novembro, perdemos uma luz intensa, um farol. 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