Palestra durante o evento de comemoração aos 60 anos da SBF. (Foto: Frederico S. M. de Carvalho)

Fundada em 14 de julho de 1966, durante reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ocorrida naquele ano em Blumenau (SC), a Sociedade Brasileira de Física (SBF) realizou em 20 de agosto, no Auditório Abrahão de Moraes, localizado na Cidade Universitária, em São Paulo, o evento comemorativo de seus 60 anos.

A cerimônia contou com a presença de ex-presidentes da entidade, de professores, pesquisadores, estudantes e autoridades. E teve como primeira atividade o seminário “60 anos da SBF”, apresentado pelo professor titular aposentado do Instituto de Física da USP Silvio Salinas. Referência na área de Física Estatística, Salinas foi secretário e membro do Conselho da SBF. Também é especialista na história da entidade, tendo publicado, em 2001, o artigo “Formação e desenvolvimento da Sociedade Brasileira de Física”, considerado uma das principais referências na preservação da memória da SBF.

Em sua apresentação, Salinas lembrou que, em 1966, a Física brasileira começava a se organizar como campo profissional, impulsionada pela expansão dos grupos de pesquisa e da pós-graduação, mas ainda não existia uma entidade nacional capaz de articular a comunidade. A criação da SBF acompanhou, segundo ele, um movimento mais amplo de institucionalização da ciência brasileira.

Um dos momentos centrais de sua exposição foi a relação entre a história da SBF e o período da ditadura militar. Fundada apenas dois anos depois do golpe de 1964, a SBF foi afetada por um período marcado por perseguições, aposentadorias compulsórias e restrições à atividade acadêmica.

Segundo o professor, a comunidade científica enfrentava obstáculos políticos mesmo quando projetos eram aprovados por mérito. Ele recordou que pedidos de auxílio ao CNPq podiam ser submetidos a outras instâncias do governo e posteriormente barrados. “O pessoal chamava isso de ‘cassação branca’”, contou. Nesse contexto, a SBF passou a posicionar-se diante de arbitrariedades, criando espaços de discussão. O Boletim da SBF, lançado em 1969, tornou-se um dos instrumentos dessa articulação.

A atuação da SBF em temas de interesse nacional também foi destacada por Salinas, que mencionou os debates sobre o programa nuclear brasileiro nas décadas de 1970 e 1980, quando a entidade promoveu discussões envolvendo política energética, tecnologia e soberania científica, defendendo a participação dos pesquisadores nas decisões nacionais.

Salinas também citou a importância de eventos como o Encontro Nacional de Física da Matéria Condensada, criado em 1978, e do Simpósio Nacional de Ensino de Física. E destacou a importância da Revista Brasileira de Física, posteriormente transformada no Brazilian Journal of Physics, e da Revista Brasileira de Ensino de Física.

Ao avaliar o papel da SBF na construção da comunidade de físicos, o professor ressaltou a importância dos encontros presenciais e da articulação entre pesquisadores. Ao final do seminário, Salinas recebeu o título de Pesquisador Emérito do CNPq, na edição de 2026, em cerimônia conduzida por Débora Menezes, que presidiu a SBF entre 2021 e 2023.

Homenagens e mesas-redondas

A programação da cerimônia também contou com uma homenagem aos ex-presidentes. Receberam a premiação José Goldemberg, Gil da Costa Marques, Francisco Sá Barreto, Humberto Brandi, Elisa Baggio Saitovitch, Adalberto Fazzio, Alaor Silvério Chaves, Celso Pinto de Melo, Ricardo Galvão, Belita Koiller, Marcos Pimenta, Rogério Rosenfeld, Débora Menezes e Rodrigo Capaz. O atual presidente da SBF, Sylvio Canuto, também foi homenageado por sua atuação à frente da entidade e por sua trajetória na área de Física Molecular e Modelagem.

Encerramento da homenagem realizada aos físicos e físicas que passaram pela presidência da SBF, nestes 60 anos. (Foto: Leandro Habertli)

A cerimônia também prestou homenagem in memoriam a ex-presidentes que já faleceram: Oscar Sala, José Leite Lopes, Alceu G. Pinho Filho, Mario Schenberg, Herch Moyses Nussenzveig, Fernando de Souza Barros, Ramayana Gazzinelli, Fernando Claudio Zawislak e José Roberto Leite.

A celebração contou ainda com duas mesas-redondas. A primeira delas, intitulada “A SBF: presente, passado e futuro”, reuniu Carla Gobel Burlamaqui de Melo, Fernanda Ostermann, Antonio José Roque da Silva e Ricardo Galvão, com participação remota de José Goldemberg e mediação de Marcelo Lyra. Por sua vez, a mesa-redonda “O Cenário da Física no Brasil e sua inserção internacional”, que contou com Adalberto Fazzio, Ignacio Bediaga e Osvaldo Novais de Oliveira Junior, sob mediação de Ana Maria Marques, propiciou um acalorado debate sobre os impactos da inteligência artificial na ciência.

Outro momento importante da programação foi a homenagem às Comissões de Área, conduzida pela professora Marcilei Guazzelli e pelo professor Victor Gonçalves. Foram reconhecidos pesquisadores de 15 áreas e iniciativas ligadas à atuação da SBF: José Roberto Rios Leite, Paulo Mascarello Bisch, Constantino Tsallis, Sérgio Mascarenhas, Francesco Toppan, Sérgio Machado Rezende, Linda Viola Ehlin Caldas, Takeshi Kodama, Cid Bartolomeu Araujo, João Zanetic, Ricardo Magnus Osório Galvão, Alberto Santoro, Luiz Davidovich, José David Mangueira Viana e Marco Antonio Moreira.

A programação incluiu ainda a entrega do Prêmio José Leite Lopes de melhor tese de doutoramento à pesquisadora Livia Pugens Mate, por seu trabalho sobre o mecanismo de armazenamento de hidrogênio em nanoestruturas de NixPd100-x. Já Anderson Stevens Leonidas Gomes, agraciado com o Prêmio Joaquim da Costa Ribeiro durante o EOSBF (Encontro de Outono da SBF) deste ano, apresentou a palestra “Uma vida entre luz e matéria”, na qual falou sobre sua trajetória acadêmica, que inclui a autoria de mais de 400 artigos científicos e uma carreira consolidada em torno do estudo da interação entre luz e matéria. Em seguida, Débora Menezes, agraciada com o Prêmio Ernesto Hamburger, apresentou uma palestra em que destacou a importância de Hamburguer em sua trajetória e também abordou a relevância da comunicação científica e da equidade de gênero na ciência.

Palavra do presidente

Ao final da cerimônia, Sylvio Canuto, presidente da SBF, destacou que a história da entidade está diretamente ligada ao processo de organização e institucionalização da ciência brasileira. Em sua fala, ele lembrou também o papel de instituições criadas no período que antecedeu a fundação da SBF, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), ambos criados em 1951.

Homenagem realizada ao presidente da SBF, professor Sylvio Canuto. (Foto: Leandro Haberli)

Canuto ressaltou a importância histórica dessas instituições para o desenvolvimento da pesquisa e da formação de pesquisadores no país. Ele entregou à diretora do CNPq, professora Débora Menezes, uma placa comemorativa em nome da instituição. Já a Capes foi representada pela professora Kaline Coutinho, coordenadora de Física e Astronomia e integrante do Comitê de Equidade, que recebeu a homenagem em nome da agência.

Ao fazer um balanço da atuação da SBF, Canuto informou que a entidade reúne mais de 3 mil sócios, organiza dez eventos científicos regulares por ano e mantém 13 comissões de área, três comissões temáticas, quatro grupos de trabalho, publica três revistas científicas, além de executar diferentes iniciativas voltadas ao ensino e à formação de professores, como as Olimpíadas de Física, a Olimpíada Brasileira de Física das Escolas Públicas e o Programa de Mestrado Nacional Profissional em Ensino de Física, que hoje conta com mais de 60 polos. Canuto também destacou a aprovação, pela Capes, do doutorado profissional em Ensino de Física, que se soma ao programa de mestrado sob o nome PROFIS e deverá começar a funcionar em 2027.

Também foi destacada a atuação da SBF na formação de professores. Canuto lembrou o acordo firmado com CNPq e Capes, que possibilitou, em abril deste ano, o envio de 24 professores de ensino médio ao CERN, cada um representando um estado diferente. A iniciativa, segundo ele, tem um efeito multiplicador, já que os professores retornam às suas escolas e comunidades levando o conhecimento e as experiências adquiridas durante a visita.

Canuto pontuou que os resultados atuais não são fruto apenas de sua gestão. E que a SBF hoje possui presença ativa na sociedade brasileira. “A SBF surgiu de uma semente colocada em uma reunião da SBPC, 60 anos atrás, e hoje é bastante atuante no debate sobre políticas científicas do país.”

Mencionando nomes como Jayme Tiomno, José Goldemberg, Oscar Sala, José Leite Lopes e Mario Schenberg, o presidente lembrou que a relevância da entidade se deve à atuação de seus antecessores e às diferentes gerações que contribuíram para sua construção. Para Canuto, essa história impõe uma responsabilidade às atuais e futuras gerações de físicos. “Temos plena consciência da responsabilidade que cai sobre nossos ombros e estamos fazendo o melhor que podemos para honrar esse legado, sempre abertos, obviamente, a sugestões”, afirmou, desejando vida longa à SBF.

Ao reunir pesquisadores de diferentes gerações, homenagear aqueles que participaram da construção da entidade e discutir os caminhos da Física brasileira, a celebração dos 60 anos da SBF mostrou que a entidade, nascida para articular uma comunidade científica em processo de formação, hoje segue firme no propósito de ampliar a presença da Física no debate nacional e fortalecer a ciência brasileira.

Veja alguns registros da celebração

Por Leandro Haberli