A cidade de Natal se transformou, entre 30 de julho e 5 de agosto, na capital mundial da Física de Altas Energias. Com a participação da Sociedade Brasileira de Física (SBF) como instituição executora, a 43ª edição da International Conference on High Energy Physics (ICHEP 2026), maior e mais tradicional conferência da área, foi realizada pela primeira vez na América Latina. Contando com as presenças de autoridades, incluindo a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, e a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, o encontro reuniu participantes de 55 países, mais de mil apresentações orais e de pôsteres, além de 49 seminários nas sessões plenárias.

A realização da conferência no Brasil foi resultado de uma articulação iniciada em 2023, quando a comunidade latino-americana foi convidada a apresentar uma proposta para sediar a primeira ICHEP na região. A candidatura de Natal foi construída por Rogério Rosenfeld, professor do Instituto de Física Teórica da Unesp e co-chair da ICHEP 2026, ao lado de Ignacio Bediaga, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). A proposta foi aceita e anunciada oficialmente durante a edição de 2024, em Praga.

SBF foi representada na cerimônia de abertura por seu 1º secretário da SBF, Victor Paulo Barros Gonçalves.

Para Rosenfeld, a escolha da capital do Rio Grande Norte representou um desafio e uma oportunidade para ampliar a presença da América Latina no cenário internacional da Física de Altas Energias.

A programação ocupou dois centros de convenções. No PraiaMar Convention Center, foram realizadas sessões paralelas em 12 salas simultâneas, distribuídas por 19 tópicos, além de duas sessões de pôsteres. As sessões plenárias, realizadas nos três últimos dias, reuniram pesquisadores de destaque internacional no Natal Convention Center, que também recebeu estandes de instituições como CERN, APS e JINR.

Os temas abordados refletiram algumas das principais questões da Física de Altas Energias e da compreensão do Universo. Incluindo a identificação dos constituintes fundamentais da matéria, a natureza da matéria escura, a assimetria entre matéria e antimatéria e a possibilidade de existência de fenômenos que estejam além das teorias atualmente estabelecidas.

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos – ao lado do professor Victor Gonçalves – foi uma das autoridades presentes no evento.

Os resultados apresentados vieram de experimentos e observatórios de grande porte, entre eles o CERN, na Suíça, o Observatório Pierre Auger, na Argentina, e o recém-inaugurado Observatório Vera Rubin, no Chile. Um dos destaques científicos mencionados por Rosenfeld foi a forte evidência obtida pela colaboração BESIII de uma partícula composta apenas por glúons, sem quarks, conhecida como glueball, prevista teoricamente pela Cromodinâmica Quântica (QCD).

A conferência também colocou em evidência os próximos passos da Física de Altas Energias. De acordo com Marcelo Munhoz, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP), a ICHEP 2026 permitiu acompanhar discussões sobre a conclusão do terceiro período de tomada de dados do Grande Colisor de Hádrons (LHC), além das perspectivas para o High-Luminosity LHC e para os aceleradores que poderão suceder o atual colisor.

“Essa conferência é a principal conferência da área de Física de Altas Energias do mundo, e o fato de ter sido realizada pela primeira vez na América Latina é bastante significativo”, afirma Munhoz. Para ele, a realização do encontro também demonstrou a consolidação da pesquisa brasileira. “Isso mostra a maturidade da comunidade de Física de Altas Energias no Brasil, que justifica uma conferência desse tamanho aqui.”

Entre os assuntos que mobilizaram os participantes estiveram as perspectivas para o chamado Run 4 do LHC, previsto para começar em 2030, e o aumento da luminosidade do acelerador. Também estiveram em pauta os futuros projetos de aceleradores para o período posterior ao LHC, cuja operação deve se estender até a próxima década. “Já se está discutindo bastante o que a comunidade física de altas energias mundial vai fazer depois disso”, diz Munhoz.

Nesse contexto, as discussões sobre o futuro da infraestrutura internacional de pesquisa ganharam espaço. Munhoz destaca a atualização da estratégia europeia para a Física de Partículas e a indicação do Future Circular Collider elétron-pósitron, o FCC-ee, como uma das principais alternativas para a próxima geração de aceleradores.

A participação brasileira no encontro também foi marcada pela atuação da SBF, que deu suporte ao recebimento das taxas de inscrição e dos patrocínios e à formalização de contratos. “A participação da SBF como instituição executora foi fundamental para a realização do evento”, afirma Rosenfeld. “Agradecemos profundamente essa parceria.”

A entidade esteve representada na cerimônia de abertura por seu 1º secretário da SBF, Victor Paulo Barros Gonçalves, professor titular do Instituto de Física e Matemática da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Em seu discurso, feito em nome do presidente da SBF, Sylvio Canuto, Gonçalves destacou que a realização da ICHEP no país ocorria em um momento simbólico para a entidade, que completa 60 anos em 2026.

“A realização deste evento aqui em Natal é um marco em nossa história”, afirmou. No discurso, o representante da SBF também ressaltou a expansão da comunidade brasileira de Física de Altas Energias e a presença do país em grandes colaborações internacionais. Entre elas estão os quatro principais experimentos do LHC, o Observatório Pierre Auger, o DUNE e o Cherenkov Telescope Array (CTA).

Gonçalves também chamou atenção para uma questão estratégica para a ciência brasileira: a regulamentação e a estruturação da participação dos grupos de pesquisa nacionais junto ao CERN, após a assinatura, em 2022, do acordo de adesão do Brasil como Membro Associado da organização. “Saiba que a SBF é uma parceira estratégica para esta tarefa”, afirmou à ministra Luciana Santos e à governadora Fátima Bezerra.

Para Munhoz, a presença da SBF na ICHEP 2026 era particularmente importante por se tratar de um encontro que reuniu a comunidade mundial da área. “Em um evento como esse, a SBF não podia ficar de fora”, afirma.

A conferência teve ainda uma dimensão de divulgação científica e aproximação com estudantes e com a população de Natal. Munhoz, que integrou a comissão organizadora e foi responsável pela área de divulgação científica, destaca a exposição “Física que nos Conecta”, organizada pelo INCT CERN Brasil, além de quatro edições do Masterclass Hands-on Particle Physics e de uma palestra aberta em português.

As atividades contaram com a participação de pesquisadores e educadores locais, incluindo integrantes do Instituto Federal do Rio Grande do Norte e do clube de ciência Corpo de Ciência. Estudantes puderam visitar a exposição, participar de atividades e conversar diretamente com pesquisadores presentes na conferência. “Foi uma conferência que também ajudou bastante a cidade de Natal com alguns eventos de divulgação científica”, afirma Munhoz.

Outro aspecto destacado por Rosenfeld foi a atenção dada a estudantes e pesquisadores em início de carreira. A programação ofereceu espaço para que jovens cientistas apresentassem seus trabalhos diante de uma audiência internacional. “A ICHEP 2026 deixa como legado oportunidades oferecidas para estudantes e jovens pesquisadores, uma maior integração latino-americana e o reconhecimento de que o Brasil como um importante centro de pesquisa nessas áreas.”

Rosenfeld também destacou que a organização do evento contou com a colaboração de um comitê local formado por 29 pesquisadores brasileiros de diferentes instituições.

Por Leandro Haberli