José Goldemberg recebendo o título de Professor Emérito da USP, em 2017. (foto: Eduardo Cesar/Revista Fapesp)

A poucos dias da cerimônia que celebrará as seis décadas de fundação da Sociedade Brasileira de Física (SBF), que será realizada em 20 de agosto, no Auditório Abrahão de Moraes, na Cidade Universitária, em São Paulo, um de seus principais protagonistas acaba de receber mais um reconhecimento por sua impressionante trajetória.

O físico José Goldemberg, um dos articuladores da criação da entidade em 1966 e presidente da SBF por dois mandatos consecutivos (1975-1977 e 1977-1979), foi anunciado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) como a Personalidade Acadêmica da terceira edição do Prêmio Jabuti Acadêmico. A cerimônia de premiação ocorrerá em 11 de agosto, no Teatro Sérgio Cardoso, também na capital paulista.

A homenagem reconhece mais de sete décadas de contribuição à ciência brasileira, período em que Goldemberg construiu uma carreira de destaque na pesquisa em Física, na formulação de políticas públicas e na defesa da educação, da energia sustentável e do desenvolvimento científico. Mas, para a comunidade da Física, a distinção também simboliza o reconhecimento de um pesquisador cuja trajetória foi fundamental para a consolidação da SBF.

Em depoimento preparado para as comemorações dos 60 anos da entidade, Goldemberg recorda o ambiente que antecedeu sua criação. “Os físicos tradicionalmente participavam das reuniões anuais da SBPC, criada em 1948, que eram a primeira oportunidade para que os estudantes tivessem contato com os mais expressivos cientistas do País e convidados estrangeiros”, lembra.

Segundo ele, a ruptura provocada pelo início do regime militar tornou evidente a necessidade de uma organização própria da comunidade da Física. “A revolução de 1964 atingiu diretamente os cientistas em geral, com cassações e outras medidas, e físicos como Mario Schenberg, José Leite Lopes e Jayme Tiomno, o que motivou a criação de uma associação para defender os cientistas e maior apoio aos seus trabalhos.”

A SBF foi criada em julho de 1966, durante a reunião anual da SBPC, realizada em Blumenau (SC). Goldemberg presidiu a sessão que oficializou a fundação da nova sociedade científica. “Os principais líderes foram Oscar Sala, Jayme Tiomno e Sergio Mascarenhas”, destaca, em referência aos principais responsáveis pela fundação da SBF.

Política energética

Nascido em Santo Ângelo (RS), em 1928, filho de imigrantes judeus russos, Goldemberg chegou à Universidade de São Paulo em 1946 para estudar Física. Graduou-se em 1950 e concluiu o doutorado em Ciências Físicas em 1954. Desenvolveu pesquisas em Física Nuclear no Instituto de Física da USP e em universidades do Canadá, dos Estados Unidos e da França, antes de ampliar sua atuação em temas ligados a energia, meio ambiente e políticas públicas.

Ao longo da carreira, ocupou alguns dos principais cargos da vida acadêmica e científica brasileira: foi reitor da USP entre 1986 e 1990, presidente da Fapesp, secretário nacional de Ciência e Tecnologia, ministro da Educação e ministro do Meio Ambiente. Em 2016 tornou-se professor emérito da USP. Também integra a Academia Brasileira de Ciências e a Academia Paulista de Letras.

Na SBF, sua atuação ultrapassou a organização institucional da comunidade científica. Durante sua gestão e ao longo das décadas seguintes, a entidade tornou-se uma das vozes mais respeitadas nos debates sobre política científica e energética do País.

“O principal desafio que a SBF enfrentou ao longo dos anos (bem como a SBPC) foi sobreviver enfrentando as restrições do governo militar e promovendo mais ações do governo para apoiar o desenvolvimento da ciência e da Física em particular”, sintetiza.

Ele lembra que a excelência da comunidade científica brasileira contribuiu para fortalecer as instituições nacionais de fomento à pesquisa. “A competência profissional inconteste de inúmeros cientistas brasileiros levou setores do Governo a reforçar o CNPq e à criação da Finep.”

Foi, porém, na discussão sobre energia nuclear que, segundo ele, a SBF ganhou maior projeção nacional. “Os físicos logo se salientaram nestas discussões devido aos problemas que a energia nuclear teve na década de 60. A compra de um reator nuclear com as ‘chaves na mão’, sem qualquer participação dos cientistas e da indústria nacional, foi um dos principais motivadores destas atividades da SBF.”

Nesse contexto, Goldemberg sublinha que um dos períodos mais críticos da atuação da Sociedade ocorreu em 1975, justamente “quando o Governo fez um acordo nuclear com a Alemanha Ocidental para um grande programa de reatores nucleares sem participação nacional e que poderia levar até ao abandono da hidroeletricidade como principal fonte de energia no Brasil.”

Segundo ele, a atuação técnica da SBF foi importante para evitar decisões estratégicas equivocadas. “Setores mais esclarecidos do Governo se beneficiaram dos trabalhos dos físicos em esclarecer as diversas opções e evitar erros maiores.”

Outro episódio marcante, em sua avaliação, ocorreu em 1979, quando o regime militar tentou impedir a realização da reunião anual da SBPC. “Estas assembleias eram um dos únicos locais em que a sociedade civil se manifestava livremente desde 1948 e se tornou um elemento importante de resistência ao governo militar”, recorda.

A reunião acabou sendo realizada na PUC de São Paulo, presidida por Oscar Sala, primeiro presidente da SBF. Pouco depois, Goldemberg assumiria a presidência da SBPC. “Sucedi o Prof. Oscar Sala na Presidência da SBPC de 1979-1981, abrindo então negociações com o Governo que ajudaram na abertura política e na volta da democracia no País.”

Seis décadas após participar da fundação da SBF, Goldemberg vê a entidade diante de novos obstáculos. “Pensando no futuro, o principal desafio da SBF é assegurar recursos maiores para a pesquisa científica e impedir uma queda no nível do trabalho científico.”

Ante uma trajetória fundamental para a história da Física brasileira, a homenagem concedida pelo Prêmio Jabuti Acadêmico chega em um momento particularmente simbólico. Às vésperas das celebrações dos 60 anos da SBF, ela reconhece a relevância de um dos personagens centrais na construção de uma sociedade científica que ajudou a defender a liberdade acadêmica e influenciar decisões estratégicas para o desenvolvimento do Brasil.

Por Leandro Haberli