Marcos Pimenta, professor titular da UFMG, foi presidente da SBF entre 2017 e 2019. (Foto: Carol Prado/UFMG)

Dando prosseguimento à publicação de conteúdos especiais comemorativos aos 60 anos da Sociedade Brasileira de Física (SBF), efeméride que será celebrada em 20 de agosto, no Auditório Abrahão de Moraes, localizado na Cidade Universitária, em São Paulo, nesta edição de nosso informativo, trazemos uma entrevista com Marcos Pimenta. Professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador 1A do CNPq, ele foi presidente da SBF entre 2017 e 2019, período em que conduziu reformas estruturais e viu concretizado um sonho antigo da comunidade: o reconhecimento da profissão de físico.

Graduado (1980) e mestre (1983) em Física pela UFMG, Pimenta tem doutorado (1987) pelo Centre de Recherches sur la Physique des Hautes Temperatures do CNRS, na França, e pós-doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT) entre 1997 e 1998. Hoje coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Nanocarbono e Materiais 2D e foi o coordenador do Centro de Tecnologia em Nanomateriais da UFMG (CTNano). Também é membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da The World Academy of Sciences (TWAS). Sua linha de pesquisa concentra-se em propriedades ópticas de materiais, com ênfase em espectroscopia Raman, nanomateriais de carbono (grafenos e nanotubos), cristais bidimensionais, perovskitas e transições de fase estruturais.

Sobre sua gestão na presidência da SBF, Pimenta identifica como principal desafio “trabalhar pelo pleno funcionamento das diversas atividades em andamento, como os encontros e escolas, revistas, olimpíadas e mestrado profissional”. “Outro desafio importante foi trabalhar pela comunicação da SBF usando novas tecnologias e redes sociais, sobretudo considerando o ambiente de crescente desinformação hoje na sociedade.”

Entre as realizações, ele destaca a “reestruturação dos encontros científicos da SBF e a criação do Encontro de Outono, que permitiu manter agregadas diferentes comissões de área da SBF num mesmo encontro”. Outro marco do mandato apontado por ele ocorreu em 2018: “Naquele ano, foi reconhecida a profissão de físico pelo presidente da República, projeto que vinha tramitando por muitos anos com apoio e empenho da SBF.”

Pimenta acrescenta que, para reconhecer a diversidade e a amplitude da atuação científica, seu mandato instituiu três prêmios: o Carolina Nemes, para mulheres físicas em início de carreira; o Ernesto Hamburger, dedicado à popularização das ciências físicas; e o Joaquim Costa Ribeiro, voltado à Física da Matéria Condensada e de Materiais.

Na avaliação de Pimenta, a SBF consolidou-se, ao longo de 60 anos, como “a mais importante representante da comunidade de físicos no Brasil, atuando em defesa da ciência, da educação e do desenvolvimento tecnológico”. A entidade, segundo ele, construiu um ecossistema de formação e difusão, constituído por várias frentes distintas, incluindo os encontros e escolas científicas, as publicações, o mestrado nacional profissional de ensino de física, as olimpíadas de física e a rede de secretarias regionais que levam a disciplina a todo o território nacional.

Os encontros científicos, ainda de acordo com Pimenta, foram o motor dessa estratégia multifacetada. “Nestes encontros, físicos provenientes de todas as regiões do Brasil tiveram a oportunidade de dar conhecimento de seus trabalhos, conhecer as pesquisas feitas em outras instituições no Brasil e várias colaborações foram estabelecidas.” Além da troca científica, Pimenta salienta que esses eventos reservaram espaço para o debate político. “Sempre foram organizadas reuniões e mesas redondas para se discutir a política científica brasileira e os rumos dos investimentos públicos.”

Por sinal, ele fez questão de comentar o papel político da SBF, sublinha que ele está presente desde a fundação da entidade, em 1966, tendo atravessado contextos distintos. “Na época da ditadura, a SBF sempre lutou pelas liberdades democráticas e defendeu físicos perseguidos pelos militares”, recorda o ex-presidente, acrescentando que, nos anos 1970 e 1980, a entidade participou ativamente dos debates sobre a política nuclear brasileira e a criação dos grandes laboratórios nacionais. “Em diferentes momentos da história do país, a SBF posicionou-se em favor do financiamento para ciência e educação e em defesa das universidades públicas.”

Pimenta também destaca que a física brasileira teve avanços notáveis nos últimos 60 anos e hoje está bem estruturada nas diferentes regiões do Brasil, com laboratórios bem equipados e infraestrutura para pesquisa de qualidade. “A nossa pós-graduação está consolidada pelo país e formamos excelentes físicos todos os anos. Físicos brasileiros têm produzido com frequência trabalhos de impacto internacional.”

Contudo, ele ressalva que é preciso contornar um persistente e importante obstáculo: a instabilidade de financiamento. “Nos primeiros mandatos do presidente Lula, a ciência foi fortemente apoiada, com financiamento robusto para infraestrutura de pesquisa e para bolsas de estudo. Sentíamos na época que nos aproximávamos dos países líderes em ciência e tecnologia no mundo”, lembra. “Em meados da década passada, tivemos um grande retrocesso com corte de recursos para ciência e tecnologia e redução do número de bolsas. Isto levou certamente ao aumento da distância que nos separa dos países líderes no cenário internacional.”

Em sua visão, é fundamental que o país volte a “ter recursos financeiros substanciais para equipar laboratórios e para bolsas de estudo, para que possamos acompanhar a ciência e tecnologia feitas no exterior”. Ecoando há seis décadas nos corredores da SBF, tal mensagem, ele arremata, volta a ser urgente neste aniversário de 60 anos da entidade.

Por Leandro Haberli