Por Leonardo S. F. dos Santos*

Nos rótulos dos alimentos, há a informação do valor energético. Em geral, esse valor energético é expresso em “kcal”. As pessoas costumam ler “kcal” como “caloria”. Na concepção popular, quanto maior a quantidade de calorias, mais o alimento engorda. Por exemplo, de acordo com o Google, 100g de toucinho e de alface têm respectivamente 541 e 15 calorias. Então 100g de toucinho engordaria muito mais do que a mesma quantidade de alface.

Por que um alimento com muitas calorias engorda? Para responder essa pergunta, é necessário entender o próprio conceito de caloria.

O que é caloria?


Caloria é uma unidade de energia. Uma caloria é a energia suficiente para aquecer um grama (1g) de água líquida de 14,5 graus Celcius (oC) para 15,5oC. O símbolo de caloria é “cal”. O termo caloria é uma alusão ao calor de aquecimento da água. No entanto, a mesma energia de 1cal pode aparecer sob formas diferentes da energia térmica. Por exemplo, uma energia de 1 caloria na forma cinética pode ser usada para tirar um corpo de 9,36 quilogramas (kg) do repouso para uma velocidade de um metro por segundo (1m/s). A energia de 1 caloria também pode tirar um corpo de 4,18kg do solo e eleva-lo até uma altura de 1 metro (m).

A caloria não é a única unidade de energia.

Outras unidades de energia.

Há outras unidades de energia. No Sistema Internacional de Unidades, a energia é expressa em “Joules” (J). A energia consumida para que um corpo de massa 2kg saia do repouso e atinja uma velocidade de 1m/s é exatamente 1J. Uma caloria corresponde à 4,18J (1cal=4,18J). Outra unidade de energia é o watt-hora (Wh). Um watt-hora equivale à 3.600 joules (1Wh=3.600J).


A letra k junto a uma unidade representa a palavra grega “kilo” que significa “mil”. O prefixo “quilo” nas palavras em língua portuguesa indicam uma multiplicação por mil. Por exemplo, as unidades físicas “quilograma” (kg), “quilómetro” (km) e quilowatt-hora (kWh) correspondem respectivamente a 1.000g, 1.000m (mil metros) e 1.000Wh (mil Watt-horas). A unidade de energia “kWh é usada nas contas de energia do Brasil. Analogamente a estes exemplos, a unidade de 1.000 calorias é chamada de “quilocaloria”, cujo o símbolo é 1kcal.

A confusão entre caloria e quilocaloria.


Nos rótulos dos alimentos, o valor energético é expresso em quilocalorias (kcal), não em calorias. No entanto, geralmente, a leitura da informação dada em “kcal” é feita em “calorias”. Por exemplo, o Google informa que 100g de sorvete de chocolate contem 216 calorias, mas o dado correto é 216kcal ou 216.000cal. A rigor, a troca da “quilocaloria” pela “caloria” é errada. No entanto, esse erro nos rótulos alimentares é tão comum que é melhor se adaptar a ele do que corrigi-lo.
Voltando ao exemplo do toucinho, 100g de toucinho teriam 541 calorias. Isso deve ser interpretado como 541 quilocalorias. Assim, 100g de toucinho contem 541kcal=541.000cal. Se 1cal corresponde à passagem de temperatura de 14,5ºC para 15,5ºC de 1g de água, então 541.000cal corresponde ao mesmo aquecimento de uma massa de 514.000g=514kg de água. Então 100g de toucinho tem energia para elevar mais de meia tonelada de água de 14,5ºC para 15,5ºC.

Desfazendo tal mal-entendido, chega-se a uma segunda pergunta.

Caloria engorda?


Um alimento é constituído por diversas substâncias. Cada substância armazena uma forma de energia denominada “energia potencial química”, popularmente chamada de “energia química”.


Os açucares e gorduras contidos nos alimentos contem muita energia química comparados às demais substâncias. É por isso que açucares e gorduras são denominados “alimentos energéticos”. A quantidade de energia dos alimentos é uma medida indireta dos açucares e gorduras contidos em um alimento. Em outras palavras, se um alimento tem muitas calorias, ele necessariamente contem muitos açucares ou gorduras (ou ambos). Por exemplo, 100g de toucinho tem 36 vezes mais energia do que a mesma quantidade de alface. Isso indica que o toucinho tem muito mais açucares e gorduras do que a alface. No entanto, o toucinho não tem necessariamente 36 vezes mais gorduras e açucares do que a alface. O sorvete de chocolate tem 14,4 vezes a quantidade de energia da alface e 0,4 do toucinho frito. Portanto, a quantidade de açucares e gorduras do sorvete de chocolate é intermediária entre o toucinho e a alface.
As gorduras consumidas na alimentação podem ser armazenadas sob a pele e entre os órgãos. Os açucares ingeridos podem ser transformados em gorduras que também serão armazenados da mesma forma. Em suma, os alimentos energéticos podem ficar armazenados no corpo humano na forma de gordura.
Os açucares comidos nas refeições podem sofrer uma série de reações químicas, transformando-se em moléculas mais simples como o gás carbônico e a água. O gás carbônico é exalado na respiração. A água pode ser excretada na urina, liberada no suor ou ainda usada em outros processos corpóreos. Esse processo é conhecido como “queima de açúcar”, mas não se trata de uma chama que libera luz. Na queima do açúcar, a energia química armazenada é transformada em calor e movimento. A energia consumida nas batidas cardíacas, nos movimentos pulmonares, nas caminhadas, nas atividades físicas em geral e na reprodução das células é obtida através da queima dos açucares.

As gorduras podem ser “queimadas” diretamente ou transformadas em açucares. Estes açucares também podem ser “queimados”. Assim, a gordura acumulada pode ser queimada direta ou indiretamente.


As proteínas também contêm energia química. Assim, as proteínas também podem fornecer energia ao corpo através de algumas reações químicas. No entanto, a quantidade de energia fornecida pelas proteínas é menor do que dos açucares e gorduras. A principal função das proteínas no organismo é a formação de estruturas em escala celular ou até macroscópica. É por isso que alimentos ricos em proteínas são classificados como construtores, ficando a designação de energéticos apenas para açucares e gorduras.

Em média, um ser humano consome 2.000kcal apenas para sobreviver. As atividades físicas como caminhadas e as ginásticas em geral elevam o gasto energético acima da média de 2.000kcal. A aceleração do metabolismo também eleva a demanda energética do organismo.


O acúmulo de gordura ocorre devido à alimentação, enquanto seu consumo se dá através da queima do açúcar, da gordura ou da proteína. Caso a ingestão de alimentos energéticos seja superior à queima, a pessoa passa a acumular cada vez mais gordura. Tal pessoa engorda. Mas se a queima dos alimentos energéticos supera sua ingestão, o acúmulo de gordura diminui e a pessoa emagrece.

Isso responde a segunda pergunta. As calorias em si não engordam. O que engorda são os açucares e gorduras contidos nos alimentos. Um alimento muito calórico ou energético contem muita gordura e açúcar e são estas substâncias que engordam. Portanto, a relação entre energia e o ganho de massa corpórea é indireta.

Procure um médico.

O entendimento da relação entre a quantidade de calorias e o ganho de massa corpórea auxilia na interpretação das informações presentes no cotidiano. No entanto, isso não é suficiente para elaborar uma boa dieta. Em suma, aumentar os exercícios físicos e diminuir a ingestão de alimentos energéticos não é necessariamente o caminho para um emagrecimento saudável. Por exemplo, problemas metabólicos podem fazer com que o corpo armazene gordura em excesso. Outro problema são as vertigens ocasionadas por certas restrições alimentares. Em suma, para um emagrecimento saudável, o leitor deve procurar um médico.

Agradecimento

Agradeço a doutora em Bioquímica pela USP e divulgadora científica Graciele Almeida de Oliveira pela correção de alguns erros da primeira versão deste texto.

 

* Leonardo Sioufi Fagundes dos Santos é coordenador do Portal Píon da Sociedade Brasileira de Física e professor de Física da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), campus de Diadema.

 

 

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