por Leonardo Sioufi Fagundes dos Santos*


A comemoração da Páscoa não ocorre em um dia fixo do ano. No ano de 2019, a Páscoa é comemorada no dia 21 de abril. Já no ano anterior, 2018, a Páscoa caiu no dia 1 de abril. No ano seguinte, 2020, a Páscoa será celebrada no dia 12 de abril. Como calcular a data da Páscoa?
A resposta a esta pergunta está ligada à ciência, mais especificamente à Astronomia. Mas além da Astronomia, o cálculo da Páscoa envolve simbolismo religioso.

O cálculo da Páscoa.


A Páscoa corresponde ao primeiro domingo depois da entrada da primeira Lua Cheia depois do dia 21 de março. Por exemplo, no ano de 2019, no dia 21/03, a Lua já estava cheia. A próxima Lua Cheia ocorreu no dia 19/04, uma sexta-feira. Então a Páscoa caiu no dia 21/04.
Com este mesmo método, é possível calcular a Páscoa do ano seguinte, 2020. Em 2020, no dia 21 de março, a Lua será minguante. A primeira Lua Cheia depois do dia 21/03/2020 será no dia 07/04/2020, uma terça-feira. A Páscoa será no domingo seguinte, dia 12/04/2020.
Há vários sites na internet com as fases da Lua e as datas da Páscoa. O leitor poderá sozinho calcular o dia da Páscoa ao longo dos próximos anos.
Mas fica outra questão. Por que a Páscoa ocorre nesta data?

A Páscoa judaica.


A origem da Páscoa vem da religião judaica. No judaísmo, a Páscoa é a comemoração da libertação do povo hebreu da escravidão no Egito. A própria palavra Páscoa vem em hebraico Pessach que significa “passagem”. De acordo com a Bíblia, no livro do Êxodo, Moisés teria orientado os hebreus na colocação de um sinal com sangue de cordeiro na porta de suas casas. Um anjo de morte passaria pelas casas com o sinal de sangue sem fazer nada, mas atacaria os lugares onde não havia esse símbolo. Nas casas atacadas, os filhos dos primogênitos teriam morrido.

O calendário usado no Brasil e em quase todo o mundo é o gregoriano. No entanto, a comemoração da Páscoa judaica é baseada no calendário hebraico. O ano hebraico começa em algum dia de setembro do calendário gregoriano, mas o cálculo do primeiro dia é bastante complicado para descrever em um artigo curto. A Páscoa é sempre comemorada no décimo-quarto dia do sétimo mês ou 14 de Nisan.

Como a Lua demora 29 dias e meio para realizar uma órbita ao redor da Terra, cada uma das quatro fases lunares dura cerca de 29,5/4=7,375 dias, aproximadamente 7 dias. Então a duração aproximada de uma fase da Lua é uma semana. Os meses hebraicos começam sempre na Lua Nova. Assim, nas primeira e segunda semanas do mês, as fases lunares eram a Nova e a Crescente. A partir do dia 14, entrava a Lua Cheia. Assim, a Páscoa judaica sempre cai na Lua Cheia.

O ano judaico começa em setembro do calendário gregoriano, logo, o sexto mês acaba em março do ano seguinte. O sétimo mês começa em março e termina em abril. Assim, a Páscoa judaica é comemorada em um dia de Lua Cheia entre março e abril. Por exemplo, em 2019, a Páscoa judaica caiu no dia 19/04.

A Páscoa Cristã.


De acordo com os Evangelhos da Bíblia, Jesus Cristo ressuscitou dos mortos em um dia de domingo durante a comemoração da Páscoa judaica. Ao que tudo indica, no primeiro século, a ressurreição de Jesus era comemorada todos os domingos. Não havia uma comemoração anual.


Em algum momento não registrado, os cristãos sentiram a necessidade de criar uma data anual para comemorar a ressurreição de Jesus. Como Jesus ressuscitou na Páscoa judaica, a festa anual também seria chamada de Páscoa. Assim como o sangue do cordeiro havia livrado os hebreus do anjo da morte, o sangue de Jesus salvaria os cristãos da morte eterna. A Páscoa judaica tinha sido ressignificada.


Uma data natural para a Páscoa cristã seria a Páscoa judaica. No entanto, já no final do primeiro século, os cristãos formavam um grupo separado do restante do judaísmo e o calendário hebraico já não era aceito por muitos. Até o século IV não havia uma data padrão para a comemoração da Páscoa.
No ano de 325, em uma reunião conhecida como Concílio de Nicéia, uma cidade da atual Turquia, a Igreja decidiu padronizar a data da Páscoa. Como no século IV, os cristãos eram cidadãos do Império Romano, eles deveriam seguir o calendário criado pelo imperador romano Júlio César em 46 a.C., o calendário juliano. Para combinar a data da Páscoa judaica com o calendário juliano e a primitiva comemoração da ressurreição no domingo, a Igreja criou o critério já descrito neste texto. A Páscoa é o primeiro domingo após a entrada da Lua Cheia após o dia 21 de março que era o início da primavera no Hemisfério Norte.

As divergências da Páscoa católica romana e ortodoxa.


Atualmente, a Igreja Católica Romana não adota a Páscoa na mesma data da Igreja Católica Ortodoxa. O motivo é uma reforma no calendário ocorrida no séc. XVI.


Na época do Império Romano, no calendário juliano, o dia 21 de março correspondia ao equinócio da primavera no Hemisfério Norte e ao equinócio de outono no Hemisfério Sul. Neste dia, o dia e a noite duravam 12 horas cada um. Após o dia 21 de março, os dias passavam a ter mais de 12 horas no Hemisfério Norte e o contrário ocorria no Hemisfério Sul. Isso corresponde às estações primavera e verão no Hemisfério Norte, enquanto no Sul sucedem-se o outono e o inverno. Somente no dia 22 de setembro, dia e noite tinham novamente a mesma duração. Entre os dias 22 de setembro e 21 de março do ano seguinte, o Hemisfério Norte experimentava o outono e o inverno enquanto o Hemisfério Sul, a primavera e o verão.
Após alguns séculos, o calendário juliano já não previa corretamente as estações do ano. Por exemplo, no ano de 1582, o equinócio previsto para o dia 21/03 ocorreu em 11/03. A razão deste erro é sutil. As linhas imaginárias do céu correspondentes aos equinócios movem-se muito sutilmente, provocando mudanças de minutos a cada ano no começo de cada estação do ano. Essas discrepâncias de minutos acumularam-se ao longo dos séculos e chegaram a 10 dias no séc. XVI.

Como já foi escrito neste texto, no Concílio de Nicéia se determinou que a Páscoa era comemorada após 21 de março que era o início da primavera no Hemisfério Norte. Mas se a primavera não começava mais em 21 de março ficava uma questão. A Páscoa deveria ser comemorada após 21 de março ou após o início da primavera no Hemisfério Norte? Qual seria a data correta da Páscoa?
No ano de 1582, o Papa Gregório XIII ordenou uma reforma no calendário para mudar os dias do ano criando o atual “calendário gregoriano”. O dia 04 de outubro de 1582 passou a ser 15 de outubro de 1582. Com a subtração de 10 dias, as estações do ano voltariam a ser associadas às antigas datas romanas e o dia 21 de março voltou a coincidir com o primeiro equinócio do ano. Às vezes, o primeiro equinócio ocorre no dia 20 de março, como no ano de 2019.
A jurisdição do Papa Gregório XIII estendia-se apenas aos cristãos católicos romanos. Os católicos ortodoxos e os protestantes rejeitaram o calendário gregoriano. No entanto, a maioria dos protestantes acabaram adotando o novo calendário. Entre os católicos ortodoxos, mesmo entre aqueles que seguem o calendário gregoriano no dia a dia, a data da Páscoa ainda é calculada com base no antigo calendário juliano.


No calendário juliano, o dia 21 de março corresponde ao dia 04 de abril do calendário gregoriano. Assim, o primeiro domingo depois da primeira Lua Cheia depois do dia 21 de março no calendário juliano pode não ser o primeiro domingo depois da primeira Lua Cheia depois do dia 21 de março no calendário gregoriano. Essa é a razão da discrepância das Páscoas comemoradas nas Igrejas Católicas Ortodoxas e Romanas. A Páscoa Ortodoxa ocorre depois ou junto com a Páscoa Latina, nunca antes. Nos anos de 2019 até 2024, a Páscoa Ortodoxa virá depois da Romana. Já no ano de 2025, as duas Páscoas coincidirão no dia 20/04.

Conclusão.

Todo domingo de Páscoa é dia de Lua Cheia.

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