O legado de Hooke

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Autor: Felipe Moron Escanhoela  
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“Retrato falado” de Robert Hooke, feito por Rachel Chapman a partir da descrição de amigos. Hooke pagou um preço alto por ter atraído a sanha vingativa daquele que se tornaria o homem mais poderoso da ciência inglesa no início do século 18. Existe uma versão, não confirmada, de que discípulos de Newton teriam destruído, após a morte de Hooke, o seu único retrato existente na Royal Society. 

Robert Hooke (1635-1703) deixou contribuições marcantes em muitos domínios do conhecimento: da física à biologia, passando por geologia, química, meteorologia e astronomia. Sua extraordinária capacidade inventiva e sua habilidade mecânica foram responsáveis por muitos inventos significativos. Foi autor de um dos livros de maior impacto na ciência e na cultura, "Micrographia" (1665), em que foram feitas, pela primeira vez, descrições de um número enorme de observações com o microscópio, ilustradas com cerca de 60 belíssimas pranchas que atestam o talento artístico de Hooke.

Embora esteja reconhecido nos manuais didáticos com a lei que leva seu nome, Hooke não tem o lugar proeminente na ciência que sua obra justificaria. Brilhante e inventivo, mas também polêmico, impetuoso e intolerante, colecionador de inimigos poderosos, enfrentou várias disputas por prioridades, as mais intensas com Isaac Newton.

Por outro lado, o fato de Hooke ter se dedicado a um sem-número de assuntos díspares e a uma gama vasta de atividades fez com que deixasse sem finalização grande parte de suas idéias. Sua origem social inferior também não colaborou para destacar a trajetória pessoal e suas dificuldades foram talvez exacerbadas por uma aparência pouco aceitável para os padrões da época: corpo excessivamente curvado, muito pálido e magérrimo, com cabelos longos e mal cuidados escorrendo pela face.

Filho do reverendo John Hooke, Robert Hooke nasceu em 1635 na ilha de Wight, sul da Inglaterra. Criança de saúde frágil, mostrou habilidade na construção de brinquedos mecânicos. Estudou línguas clássicas e fascinou-se desde cedo com a obra de Euclides. Após a morte do pai, que se suicidara quando o filho tinha 13 anos, foi para Londres, onde se tornou aprendiz de artistas e cientistas.

Com 18 anos, ingressou na Universidade de Oxford, onde passou a fazer parte de um conjunto excepcional de adeptos da visão baconiana, que se reunia regularmente para discutir temas e experimentos e que criaria a Royal Society em 1662. Em 1658, tornou-se assistente de Robert Boyle (1627 - 1691), com quem iniciou sua trajetória científica.

Logo no início da Royal Society, Hooke foi indicado como um dos "curadores de experimentos". Tinha a incumbência de realizar a cada encontro semanal "três ou quatro experimentos consideráveis". O encargo exigia um trabalho insano, e talvez esteja aí uma das razões para sua dificuldade em se aprofundar nos temas em que trabalhava.

Por outro lado, a atividade demandou muito de sua capacidade imaginativa e mecânica, o que possibilitou uma enxurrada de observações nos mais variados domínios e a invenção de muitos aparatos – como a bomba de ar moderna, que usou para realizar uma série de experimentos, inclusive os que inspiraram a formulação da lei dos gases ideais.

A lei que leva o seu nome foi introduzida em 1678. Ela afirma que a força produzida por uma mola é proporcional ao valor de sua compressão ou distensão. Para preservar sua formulação, Hooke havia, anos antes, escrito o anagrama "CEIIINOSSSTTUV", uma mistura das letras da expressão latina de sua lei: "Ut tensio, sic vis".

O cientista também contribuiu para a construção do cronômetro marítimo; inventou o diafragma usado em câmeras; construiu a primeira junta universal, hoje amplamente usada em veículos; inventou ou aperfeiçoou aparelhos que possibilitaram o desenvolvimento da meteorologia; analisou fósseis, concluiu que algumas formas de vida já haviam sido extintas e fez especulações sobre a mutabilidade das espécies; supôs que a superfície da Terra era muito mais dinâmica do que se imaginava e que era bem mais antiga do que os 6.000 anos geralmente aceitos naquela época; registrou a famosa observação das "células" existentes na cortiça; descreveu os padrões coloridos formados por uma camada fina de ar entre placas de vidro (os "anéis de Newton") entre muitos outros feitos.

Quando Newton escreveu sua primeira carta sobre a teoria da luz, em 1672, Hooke fez uma crítica rápida e algo superficial. Surgiu daí o primeiro confronto entre eles. Newton gastou semanas para responder e mostrou toda a sua capacidade argumentativa e também suas garras. Hooke foi submetido à humilhação de receber uma resposta dura e pública às críticas que fizera a seu oponente. Mas Newton teve de deixar claro que fizera uma hipótese ousada, a de que a luz seria constituída de corpúsculos.

Quando Newton publicou, em 1675, sua "Hipótese da Luz", Hooke ficou irritado e teria alegado, injustamente, que tudo já estaria contido em sua "Micrographia". Esse episódio deixou Newton tão agastado que a partir daí se mostraria sempre receoso de expor suas idéias.

A polêmica mais intensa entre os dois, porém, ocorreria com a proposição da lei da gravitação. Quando Newton publicou seus famosos "Principia", em 1686, Hooke ficou insatisfeito e se considerou injustiçado por não ver citadas suas contribuições. Na polêmica que se instalou, Newton respondeu com a intensidade de sempre, e suas afirmações prevaleceram no meio acadêmico. Hooke nunca se recuperaria dessa frustração. Estudos recentes de historiadores da ciência, entre os quais de grandes especialistas em Newton, como Richard Westfall e Bernard Cohen, se nada retiram do brilho intelectual de Newton, mostram que a contribuição de Hooke foi bem mais importante do que Newton estava preparado para admitir.

A análise da correspondência entre os dois cientistas mostra que Hooke ensinou a Newton como analisar o movimento curvo dos planetas. Posteriormente, Hooke fez a afirmação forte de que merecia o crédito por ter sugerido a Newton a lei da gravitação universal. A reclamação era muito exagerada.

Para conhecer mais detalhes dessa disputa e da vida e da obra de Hooke, faça o download, pelo link abaixo, do Artigo Robert Hooke (1635-1703) - Retrato da pesquisa quando jovem, escrito por Ildeu de Castro Moreira e publicado no jornal Folha de São Paulo de 02 de novembro de 2003, por ocasião do tricentenário da morte do cientista inglês.

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