Física perde Leo Phillip Kadanoff

leokadanoffFaleceu no dia 26/10, aos 78 anos, Leo P. Kadanoff, um dos gigantes da física teórica da segunda metade do século XX. Seu trabalho seminal de 1966, que introduziu as hipóteses de invariância de escala e universalidade no modelo de Ising, deu início a uma nova era no tratamento de fenômenos críticos e pavimentou o caminho para o desenvolvimento da teoria do grupo de renormalização. Esse trabalho e seus desdobramentos, com contribuições de outros renomados físicos, tiveram um grande impacto na física brasileira, particularmente nos grupos de mecânica estatística e teoria da matéria condensada que estavam se formando no país no final da década de 60 e início da década de 70. A partir da década de 1980, Kadanoff dedicou considerável tempo e energia ao estudo de fenômenos macroscópicos em diversos sistemas que até então não tinham recebido a devida atenção dos físicos, tais como formação de padrões em fluidos, sistemas granulares, sistemas dinâmicos, caos e turbulência, tendo sido um dos principais responsáveis por tornar esses e outros "sistemas complexos" uma importante área de pesquisa em física e matemática aplicada.

Kadanoff tinha um elevado senso de dever cívico. Como presidente da American Physical Society defendeu um maior engajamento dos físicos e suas sociedades para melhorar a educação científica da população em geral. Envolveu-se também em programas para a melhoria dos museus de ciência, procurando aproximá-los das universidades e vice-versa. Considerava um dever dos cientistas participar de discussões públicas sobre os temas científicos relevantes do momento. Ele possuía um apurado senso crítico e grande integridade intelectual, e esperava o mesmo não somente de seus alunos e colaboradores mas também da comunidade científica como um todo, não se abstendo de criticar, sempre de maneira qualificada e bem embasada, quando percebia situações em que os padrões de excelência e exigência da ciência estavam sendo, intencionalmente ou não, relaxados.

Kadanoff fez sua graduação, mestrado e doutorado em Harvard. Após passagem pelas Universidades de Illinois (Urbana) e Brown, transferiu-se em 1978 para a Universidade de Chicago, onde permaneceu durante o resto de sua carreira. Tornou-se professor emérito em 2003 mas continuou ativo acadêmico e cientificamente. Como orientador e mentor, sempre procurou estimular a independência e a criatividade dos seus alunos e posdocs, reforçar (através de suas próprias atitudes) valores humanísticos e éticos, instigar a curiosidade intelectual e o rigor científico, e incutir neles uma apreciação especial pelo uso inovador de métodos matemáticos, aliados a argumentos físicos simples, para resolver problemas aparentemente complexos. Sua trajetória científica e pessoal continua sendo um exemplo e referência para todos nós, servindo, em particular, como fonte de inspiração para nossa atuação como orientadores.

Dentre os diversos prêmios e homenagens que recebeu, destaca-se a medalha Boltzmann, concedida a cada três anos pela Comissão de Física Estatística da IUPAP, e entregue a ele durante a realização da conferência STATPHYS no Rio de Janeiro em 1989. Kadanoff esteve no Brasil pela última vez em 2008 quando apresentou diversas palestras em conferências no Recife, Foz do Iguaçu e Rio de Janeiro. Ele faleceu de complicações decorrentes de uma recente cirurgia de coração, deixando esposa, filhas e netos.

O seu falecimento é motivo de luto para a ciência mundial.

Giovani Vasconcelos, DF-UFPE

Stefanella Boatto, IM-UFRJ

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