Morre autora do primeiro artigo de pesquisa do CBPF

NOTA DE FALECIMENTO

Neste final de semana faleceu Neusa Amato, pesquisadora aposentada do CBPF, e uma das pioneiras da física brasileira. Neusa nasceu em Campos/RJ, em 29/08/1926, mas viveu desde um mês de idade no Rio de Janeiro. No ensino médio foi aluna brilhante do famoso professor Plínio Süssekind da Rocha. De família tradicional, que, de acordo com o pensamento dominante na época, considerava que a atividade científica não era para mulheres, Neusa teve que se opor à família, contando com o apoio de Plínio, para fazer vestibular para o curso de Física na Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil. Ela foi a quarta mulher brasileira a bacharelar-se em  Física (1945); foi precedida somente por Yolanda Monteux (USP, 1938), Elisa Frota-Pessoa (Universidade do Brasil, 1938) e Sonia Ashauer (USP, 1942).

Inicialmente trabalhou como professora de Física no Colégio Assunção e no Colégio de Aplicação da Universidade do Brasil. Seu  desejo era dedicar-se à pesquisa e, como havia se destacado na graduação, César Lattes a convidou para trabalhar, juntamente com Elisa Frota-Pessoa, no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), que havia sido criado em 1949, com a participação de Lattes e da maioria dos pioneiros da física brasileira, como José Leite Lopes e  Jayme Tiomno. Começou em 1950 como pesquisadora voluntária, sem salário, mas em 1951 foi finalmente contratada e pode dedicar-se à pesquisa.

Em 1950, publica com Elisa Frota-Pessoa aquele que foi o primeiro artigo de pesquisa do CBPF: "Sobre a desintegração do méson pesado positivo", publicado  nos Anais da Academia Brasileira de Ciências. Esse trabalho, um estudo sobre o modo eletromagnético de desintegração do méson p+, realizado com emulsões nucleares irradiadas em Berkeley, foi excepcional. Tratava-se de um tema da maior atualidade científica, que interessava físicos em todo o mundo. Sua realização dependeu, além da posse das emulsões, do empenho, da vontade e criatividade das duas pesquisadoras e teve muita repercussão, pois obteve os primeiros resultados que apoiavam experimentalmente a “teoria V-A” das interações fracas.

De 1967 em diante, quando, por iniciativa de Cesar Lattes e de H. Yukawa, foi iniciada a colaboração Brasil-Japão para estudar as interações produzidas por raios cósmicos usando emulsões nucleares expostas no Monte Chacaltaya, Bolivia, e até o  final de sua carreira, Neusa trabalhou com a detecção de raios cósmicos de altas energias. Graças à sua seriedade profissional e competência científica, o grupo do CBPF cresceu e deu contribuições relevantes para o conjunto da colaboração.

Ao longo de sua carreira, totalmente desenvolvida no  CBPF, de 1950 à aposentadoria compulsória em 1996, Neusa Amato publicou 116 trabalhos. Ela é uma das pioneiras da Ciência no Brasil, na série de biografias curtas em homenagem a essas cientistas feita pelo CNPq.

A vida profissional de Neusa desenvolveu-se sob a marca de um comportamento sumamente modesto, no qual o importante era a qualidade e a seriedade do trabalho; a vaidade profissional estava praticamente ausente.

Neusa foi casada com Gaetano Amato e teve dois filhos. Sua filha Sandra Amato é também física, professora do IF-UFRJ.

Ligia MCS Rodrigues
Pesquisadora do CBPF

PION

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