Nobelistas pressionam UE por investimento em ciência

Carta assinada por cientistas renomados encoraja governo a incentivar a inovação como forma de proteger competitividade; o mesmo drama é enfrentado no Brasil.

nobel-medalEm uma carta dirigida aos presidentes da União Europeia e assinada por 42 vencedores do prêmio Nobel e medalhistas da prestigiosa medalha Fields, um grupo de cientistas pede atenção aos recursos destinados a ciência e tecnologia.

O documento, apresentado nesta terça-feira (23), às vésperas da reunião que definirá o orçamento da UE para o período 2014-2020, pede aos chefes de Estado e de Governo que preservem a todo custo o apoio à ciência. Segundo eles, transformar o conhecimento em inovação é a única forma de manter a Europa em condições competitivas no mercado global.

“É um documento interessante porque mostra que essa preocupação é global", diz Celso de Melo, presidente da Sociedade Brasileira de Física. "O que eles estão dizendo lá, com a autoridade de cientistas renomados e reconhecidos por suas contribuições, é válido aqui, no Brasil.”

Melo lembra que o orçamento do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação tem sofrido cortes seguidos nos últimos dois anos, quando a necessidade era de ampliação de recursos. Espera-se que, em 2013, o orçamento para o setor volte a crescer, seguindo a tendência existente até 2010.

Confira abaixo a íntegra da carta dos nobelistas à UE.

Para os Chefes de Estado ou de Governo dos países da UE, presidentes de instituições da UE,

É comum dizer que toda crise apresenta também uma oportunidade. A crise atual nos obriga a fazer escolhas, e uma dessas opções é sobre a ciência e seu apoio. Lá atrás, no ano de 2000, os senhores e seus antecessores definiram como objetivo tornar a sua “a mais dinâmica economia no mundo, baseada no conhecimento, até 2010”. A intenção era ambiciosa e nobre, mas o objetivo ainda não foi alcançado.

A ciência pode nos ajudar a encontrar respostas para muitos dos problemas prementes que enfrentamos neste momento: novas formas de aproveitar a energia, novas formas de produção e de produtos e melhores formas de entender como as sociedades funcionam e como podemos organizá-las melhor.

Estamos apenas no início de um entendimento novo e revolucionário de como nossos próprios corpos funcionam, com consequências incalculáveis para a nossa saúde futura e longevidade.

A Europa está na vanguarda da ciência em muitas áreas. Transformar esse conhecimento em produtos inovadores, serviços e indústrias é a única forma de dotar a Europa de uma vantagem competitiva no atual cenário global em rápida mudança e assegurar a prosperidade futura da Europa.

Conhecimento não conhece fronteiras. O mercado global de talento excepcional é altamente competitivo. A Europa não pode dar-se ao luxo de perder os seus melhores pesquisadores e professores, e ganharia muito atraindo talentos estrangeiros. Reduzindo os recursos disponíveis para a investigação de qualidade significa um menor número de pesquisadores treinados. No caso de uma grave redução no orçamento para pesquisa e inovação da UE, corremos o risco de perder uma geração de cientistas talentosos justamente quando a Europa mais precisa deles.

A este respeito, o Conselho Europeu de Pesquisas alcançou reconhecimento mundial em um período notavelmente curto. Ele financia os melhores pesquisadores em qualquer lugar da Europa, independentemente da nacionalidade: excelentes pessoas, projetos excelentes. É um valioso complemento no financiamento nacional da pesquisa fundamental.

Financiamento da pesquisa ao nível da União Europeia é um catalisador para uma melhor utilização dos recursos que temos e fazer orçamentos nacionais mais eficiente e eficazes. Esses recursos da UE são extremamente preciosos. Eles provaram ser capazes de alcançar benefícios essenciais para a ciência europeia, bem como aumentar os retornos para a sociedade e aumentar a competitividade internacional.

É essencial que nós sigamos apoiando, e mais importante ainda, inspirando de uma maneira pan-europeia a extraordinária riqueza do potencial para pesquisa e inovação que existe em toda a Europa. Estamos convencidos de que a nova geração de pesquisadores também fará ouvir a sua voz –e os senhores devem ouvir o que eles têm a dizer.

Nossa pergunta para os senhores, Chefes de Estado ou de Governo e presidentes reunidos em Bruxelas, em 22-23 de novembro para discutir o orçamento da EU para 2014-2020, é simples: quando o acordo para o próximo orçamento europeu for anunciado, qual será o papel da ciência no futuro da Europa?

Assinado pelos prêmios Nobel e vencedores medalha Fields

SIDNEY ALTMAN, WERNER ARBER, ROBERT J. AUMANN, FRANCOISE BARRÉ-SINOUSSI, GÜNTER BLOBEL, MARIO CAPECCHI, AARON CIECHANOVER, CLAUDE COHEN-TANNOUDJI, JOHANN DEISENHOFER, RICHARD R.ERNST, GERHART ERTL, SIR MARTIN EVANS, ALBERT FERT, ANDRE GEIM, SERGE HAROCHE, AVRAM HERSHKO, JULES A. HOFFMANN, ROALD HOFFMANN, ROBERT HUBER, SIR TIM HUNT, ERIC R. KANDEL, KLAUS VON KLITZING, SIR HAROLD KROTO, FINN KYDLAND, JEAN-MARIE LEHN, ERIC S. MASKIN, DALE T. MORTENSEN, ERWIN NEHER, KONSTANTIN NOVOSELOV, SIR PAUL NURSE, CHRISTIANE NÜSSLEIN-VOLHARD, VENKATRAMAN RAMAKRISHNAN, SIR RICHARD J. ROBERTS, HEINRICH ROHRER, BERT SAKMANN, BENGT I. SAMUELSSON, JOHN E. SULSTON, JACK W. SZOSTAK, SIR JOHN E. WALKER, ADA E. YONATH, ROLF ZINKERNAGEL, HARALD ZUR HAUSEN; PIERRE DELIGNE, TIMOTHY GOWERS, MAXIM KONTSEVICH, STANISLAV SMIRNOV, CEDRIC VILLANI

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