Braz. J. Phys. vol. 37, no. 4 (2007)

Nota do Editor

Com a publicação do número de dezembro (volume 37, número 4), que já se encontra na rede (www.sbfisica.org.br/bjp), encerro um período de dez anos á frente do Braz. J. Phys. A partir do primeiro número de 2008 o editor responsável será o nosso colega Antonio Sérgio T. Pires, da UFMG, com quem vou colaborar durante o período de transição.

Assumi a edição do Braz. J. Phys. no início de 1998, a convite do Presidente da SBF, Humberto Brandi, sucedendo como editor ao atual Presidente, Alaor Chaves. A boa prática recomenda que os editores, principalmente no caso das revistas publicadas pelas sociedades científicas, tenham um mandato limitado (cinco anos com uma renovação de mais cinco é um prazo razoável), permitindo a reavaliação periódica de métodos e objetivos, a redefinição da própria política editorial, ou pelo menos uma certa dose de renovação.

Em 1998 a publicação estava em dia, embora houvesse poucos artigos sob consideração. No entanto, o Braz. J. Phys. não estava adequadamente indexado, não havia recursos do antigo programa da Finep de apoio à publicação das revistas científicas nacionais, e a própria SBF foi obrigada a garantir a continuidade da publicação. Chegamos a considerar o encerramento de atividades como revista científica nacional, mas o Conselho da SBF preferiu ser mais cauteloso, pois começou a se desenhar certo aumento de interesse, principalmente em torno da publicação de edições especiais. Logo depois foi conseguida a indexação no ISI, e também foi estabelecido o novo “programa editorial” do CNPq, que desde então funciona de maneira exemplar, garantindo a regularidade de um número expressivo de Publicações nacionais.

Os artigos publicados sob a minha responsabilidade (1998 a 2007), com todos os seus altos e baixos, erros e eventuais acertos, estão disponíveis na rede, na nossa página (e na página do Scielo, que tem um controle interessante de “downloads”). Se o leitor for paciente, vai descobrir que também estão na rede todos os artigos publicados, desde o primeiro número em 1971, em formato pdf, podendo ser recuperados através do nome do autor (ou de palavras do título). Esses arquivos, contendo uma pequena parcela de história da física brasileira, foram produzidos através de leitura óptica e ainda têm muitos erros, que precisam ir sendo aos poucos corrigidos. Nos últimos anos, com o apoio mais garantido do CNPq, conseguimos modernizar algumas operações. Implementamos um gerenciador eletrônico “online”, em pleno funcionamento, que tem facilitado a análise e o acompanhamento dos artigos recebidos, mas que tem criado uma série de novos problemas. De qualquer forma, ainda temos um longo caminho na informatização de todas as operações do Braz. J. Phys., incluindo a sua colocação mais ampla no universo eletrônico.

Felizmente pertenço a uma geração que não era versada na nova cientometria. Quando assumi a edição do Braz. J. Phys., confesso que não tinha a menor idéia do que seria esse tal “índice de impacto”. Mais tarde percebi que há colegas, inclusive de outras áreas, dominados por uma espécie de “operação contagem”, que às vezes tem pouco significado. Estou saindo na hora certa, deixando espaço para a crítica da geração mais jovem. Inicialmente o parâmetro de impacto do Braz. J. Phys. aumentou, passando por um máximo, mas começou a cair. Estamos longe das revistas do hemisfério norte. Tenho a impressão de que a curva descendente do parâmetro de impacto é produto do aumento do número de artigos publicados, que por sua vez é resultado de uma política liberal de publicação de “proceedings” de reuniões nacionais. No entanto, uma “revista nacional” teria mesmo que publicar “proceedings”, trabalhos de revisão ou edições especiais. Cabe agora à SBF refletir sobre o alcance e a oportunidade dessas publicações. Cabe também refletir sobre as formas de conciliação entre a “revista nacional”, publicada por uma sociedade científica, aberta na rede, e as exigências de qualidade e visualização global.

Há cerca de três ou quatro anos fui convidado por um comitê da IUPAP para uma reunião em Londres, presidida por Martin Blume, editor principal da American Physical Society, sobre questões de ética (plágio, falsificações de todo tipo) nas publicações científicas. Havia notícias sobre caso ocorrido nos laboratórios da Bell, envolvendo um pesquisador que teria publicado artigos fraudulentos em Physical Review. Na época achei que os americanos estavam preocupados demais, que esses problemas de “primeiro mundo” não nos atingiam. Decidi contribuir apenas com um relato sucinto sobre o Braz. J. Phys., e economizei uma viagem à Europa. Puro engano. No novo sistema “online”, que é muito aberto para a submissão de artigos, toda a semana eu recebo manuscritos das mais diversas procedências, muitas vezes de qualidade duvidosa. Apesar do auxílio dos editores associados e de alguns colegas altamente cooperativos, tenho encontrado dificuldades para conseguir árbitros adequados. Em alguns casos, os árbitros têm apontado exemplos de plágio e de duplicações, mas eu nunca imaginava que pudesse detectar casos flagrantes de dupla publicação de autores brasileiros no próprio Braz. J. Phys. O trabalho do editor tem se tornado muito difícil. Certamente já aprendemos a publicar, aprendemos a satisfazer as regras mínimas do “impacto”, mas há um longo caminho para a produção científica de qualidade. Os meus sucessores e a própria SBF precisam refletir sobre o aumento explosivo das publicações científicas. A quantidade tem pouco sentido se não vier acompanhada de doses mínimas de qualidade e comportamento ético.

Registro o meu agradecimento aos Editores Associados, aos membros do Corpo Editorial que colaboraram comigo, aos editores convidados das edições especiais, e principalmente aos árbitros que contribuíram para manter a qualidade da física brasileira. Como editor, na fase do papel, agradeço o apoio de Márcia Silvani, nossa secretária no Instituto de Física da USP. Finalmente, os meus agradecimentos ao único membro do nosso “staff”, Neusa Martin, trabalhando parcialmente para o Braz. J. Phys., que compôs os artigos e cuidou da produção da revista nos últimos dez e tantos anos.

Silvio. R. A. Salinas
Editor do Braz. J. Phys.
10 de dezembro de 2007