V. ARMAS NUCLEARES
Em fevereiro de 1996, participei de 4 encontros relacionados com questões nucleares. Os pontos principais desses encontros são relatados a seguir. Os eventos foram:
1. O encontro com Joseph Rotblat versou sobre a proposta de um evento Pugwash no Rio de Janeiro. Rotblat informou que: (a) o encontro tinha sido reconhecido como parte da programação das conferências Pugwash de 1996; (b) havia proposto como data do evento, 18 a 20 de outubro de 1996. (Observação: a carta de 2/2/96 de Cláudia Vaughn (Pugwash Conferences) para Luiz Pinguelli Rosa confirma essa data, mas desloca o evento para São Paulo.)
Sobre a agenda do encontro, apresentei comentários sobre a nossa proposta. (ver texto em anexo 1). Rotblat pretende convidar cientistas influentes de países não signatários do TNP. Ele também mencionou o nome de Celso Amorim (atualmente representante brasileiro junto as Nações Unidas e, com Rotblat, membro da Comissão Camberra para Eliminação de Armas Nucleares; ver composição da comissão na relação anexa No. 2).
2. A conferência no Carnegie Endowment for Peace foi o evento principal que ocorreu em Washington DC. Ela foi muito concorrida (~300 pessoas) e dela participaram representantes de parlamentos de vários países, além de embaixadores e membros dos governos. Um exemplo: na sessão sobre o Sul da Ásia participaram lideres de partidos da Índia e do Paquistão, embaixadores junto às Nações Unidas da Índia, Paquistão e da China. Houve uma sessão dedicada às iniciativas regionais para conter a proliferação de armas nucleares, principalmente, a iniciativa bilateral Argentina-Brasil; a atual situação do acordo bilateral foi apresentada pelo embaixador Julio Carasales da Argentina e Marco Aniônio Marzo da agência ABACC.
Minhas impressões principais dessa conferência foram: (a) a assinatura ainda em 1996 do tratado proibindo testes nucleares não está garantida; esse tratado talvez seja assinado por estágios; (b) a importância da solução da disputa de Cashimir sobre eventuais tratados entre India e Paquistão; (c) a grande aceitação internacional das iniciativas regionais (zonas livres de armas atômicas); o tratado de Pelindaba (zona livre Africana) já está formalizado e países do sudeste asiático decidiram instituir uma zona livre apesar dos protestos dos EEW e da China; (d) as dificuldades financeiras para "limpeza" do espólio da guerra fria tanto nos expaíses Soviéticos como nos EEW; a "conta" da guerra fria para os EEW atinge atualmente US$ 4 trilhões.
3. A reunião da manhã do dia 14 de fevereiro sobre a experiência latino-americana de acordos bilaterais ou regionais foi organizado por um grupo de especialistas em questões nucleares com base na Universidade de Virgínia (John Redick, Univ.Virgínia, Emb. Julio Carasales, e Paulo Wrobel da PUC-RJ). o seminário contou com a presença do secretario geral de OPANAL que relatou a situação atual do tratado de Tlatelolco, onde apenas Cuba ainda não ratificou o tratado mas já solicitou sua integração. Participaram também representantes das embaixadas da Argentina e do Brasil, e especialistas de Israel, Coréia do Sul, Egito, India e dos EEW. (Ver relação de participantes no anexo 3).
A apresentação mais importante foi feita por Marco Aniônio Marzo da ABACC (ver anexo 4). Ficou demonstrado o interesse dos participantes da Coréia do Sul e de Israel de exame das atividades da ABACC com vistas a uma eventual implementação de acordos regionais no Oriente Médio e na Península da Coréia. (Está sendo considerado um encontro específico para exame da aplicação do Acordo Bilateral Argentina e Brasil no Oriente Médio, e visita a ABACC por especialistas da Coréia do Sul. Essas iniciativas contam com a participação de David Albright e Tom Zamora Colina do Institute for Science and Internacional Studies, ISIS).
O representante da Coreia do Sul informou que há interesse no seu país de se criar zona livre de armas nucleares com a participação do Japão, entre outros países. Finalmente, na manifestação do participante da Índia ficou claro que Índia quer uma solução global para o desarmamento nuclear, não tendo interesse em soluções regionais do tipo ABACC.
4. O seminário sobre os projetos iraquianos foi organizado por David Albright, ISIS. Nesse encontro, dois representantes da AIEA relataram as novas evidências encontradas a partir de agosto de 1995 sobre dois projetos iraquianos: bombas atômicas e as armas biológicas. Essas novas evidências fornecida pelo governo iraquiano são bem detalhadas e a enorme quantidade de documentos ainda está sendo processada. Essas informações foram fornecidos pelo governo iraquiano logo após a fuga do país de Hussein Kamel, o responsável geral desses projetos. As principais informações apresentadas nesse seminário foram (anexo 5):
a) Iraque teria a bomba nuclear em 1992;o projeto foi interrompido durante a Guerra do Golfo;
b) a primeira bomba atômica iraquiana foi decidida como um projeto emergencial em agosto-setembro de 1990, e o material explosivo nuclear a ser utilizado seria retirado de dois reatores de pesquisa, um russo e um francês; totalizando 25 quilos de urânio enriquecido (em torno de 86%). O enriquecimento final seria feito a partir de janeiro de 1991, utilizando-se uma cascata de 50 centrífugas a gás especialmente construída com este propósito; seria utilizada a técnica de implosão com explosivos convencionais;
c) não há evidências de projetos avançados para transformação da bomba em arma nuclear: não existia disponibilidade de plataforma de lançamento e de foguetes com dimensões e potência apropriados (para lançamento da bomba sobre Israel, por exemplo);
o mecanismo para disparo da bomba seria atuado por sensores rudimentares de pressão (altímetros);
d) Iraque possuía da ordem de 200 bombas com material biológico (com tipos diferentes de bactérias); as equipes e os equipamentos utilizados foram iraquianos: dois grupos de pesquisadores (incluindo universitários) trabalharam em regime de tempo integral para desenvolver as culturas em fermentadores originalmente utilizados para fabricação de vacinas; esse projeto foi desenvolvido em cinco anos.